terça-feira, 4 de junho de 2013

Sobre torcedores e espectadores: que futebol queremos?

Ken Loach se notabilizou como um diretor que tem como foco a construção de tramas que retratam a vida da classe trabalhadora. Tenho um carinho muito grande por esse cara que possui o mesmo objetivo que pensadores como E.P. Thompson, Emile Zola, João Antonio... Esse, dentre vários outros, gostam de pensar, irradiar, colorir as questões, os dilemas, as contradições vividas pelas classes trabalhadoras em seus países. Mas voltando a Ken Loach, esse cara dirigiu um filme que eu gosto muito (na verdade um dos únicos que vi, confesso preciso conhecer melhor a sua obra...) chamado "looking for Eric", no Brasil intitulado "A procura de Eric". Essa trama conta um pouco da vida do carteiro Eric, torcedor do Manchester United e que possui uma vida bem conturbada, os filhos vivendo os dilemas da juventude e ele [Eric] sem saber o que fazer e ainda separado da mulher que ele ama tanto. No meio desse turbilhão, ele tem vários encontros com o Rei, Eric Cantona, jogador Francês, ídolo do Manchester United. Na verdade, os encontros com o Rei são aparições "ilusórias", e eu fiquei com a impressão de que isso acontece (também) pelo uso da maconha roubada de um dos filhos de Eric. Eric Cantona  é um jogador que está entre os grandes ídolos do futebol mundial, polêmico, sem clichês e com uma consciência politico-social muito interessante (recomendo o documentário narrado por ele chamado "rebeldes do futebol" o trailer pode ser visto aqui.) Não vou falar muito desse filme, mas recomendo demais esse filme!

Sigo mais um texto torto com uma cena muito importante desse filme. A qual remete ao modo como alguns países estão pensando o modo como o futebol deve ser vivido. Sem muita coisa, veja a cena abaixo:

video


Várias são as impressões presentes nessa cena. A primeira sobre as modificações presentes em alguns clubes e as parcerias entre os clubes ingleses e algumas grandes empresas. Nesse caso, o amigo de Eric é um "torcedor" do FC United. Na verdade, ao fim da cena percebe-se que ele é Manchester United, afinal, como já foi lembrado no belíssimo filme "segredo dos seus olhos": não se muda uma paixão. Mas isso fica pra outra Conversa.

Voltando a cena postada acima, é possível pensar em outro ponto. Afinal, depois das modificações no futebol inglês, com o Relatório Taylor (anos depois visto como uma grande farsa, com podemos ver aqui) e as demais políticas de Margaret Thatcher (afinal, todas estão intimamente ligadas... Assim, como a BH dos Muros de um certo prefeito socialista), o torcedor humilde foi excluído e os carros que se encontram no lendário Old Trafford, não são mais os seus. o futebol inglês, assim como tantos outros se elitizou.

O mesmo passo parece ser seguido pelo futebol brasileiro. próximos de uma copa do mundo que parece deixar poucos legados, assistimos várias bizarrices: privatização de estádios, processos de desapropriações de famílias humildes, aumento do preço de ingressos... E tudo isso por conta de uma copa do mundo... De fato Jerome Valcke tem razão... A afinal "menos democracia ajuda na organização de uma copa do mundo".

A geral, setor próximo ao campo e com os preços mais baratos, foi extinta em vários estádios brasileiros. Assim, os torcedores humildes provavelmente estarão muito longe das novas "Arenas". A avalanche gremista parece estar com os dias contados, as torcidas organizadas - geralmente analisadas de modo equivocado pelos "especialistas" - sempre são criminalizadas... E tudo isso parece acontecer em nome da "modernização" do futebol brasileiro. E isso sem contar o ponto que é o mais importante: os preços dos ingressos não cabem no bolso de quem no ano de 1984, poderia pagar menos de duas latas de óleo por um ingresso (veja aqui).

Para arrematar esse texto torto, penso em uma foto que está no texto sobre o carnaval em BH lanço a  seguinte questão: que futebol queremos? Afinal, quando pensamos o futebol, pensamos a cidade que queremos construir. Sempre tive a hipótese que o processo de (re)construção do futebol brasileiro, caminha de mãos dadas com outras tantas políticas sobre e para a cidade. Basta lembrar a higienização que assistimos na Africa do Sul, durante... Uma copa do mundo! E disseram, que o apartheid acabou... Vejam...




Outra violência é a negação de direitos para várias famílias gauchas... Homens, mulheres e crianças estão sendo expulsas de seus lares. Em nome de que? Do capital? Deixo o Link de uma parte das série de reportagens, também realizadas pela ESPN Aqui: 1ª parte e 2ª parte.

 Outras vozes, creio que vozes hegemônicas (pelo menos com maior abrangência nos meios de comunicação), parecem ser favoráveis a esse processo, dentre eles destaco a imprensa esportiva. Assim, o título desse texto não é gratuito, vejo a mudança daqueles que vivem o futebol: os torcedores, apaixonados (capazes de mudar resultados de jogos, basta lembrar do ultimo jogo entre Barcelona e Bayern de Munique e suas respectivas torcidas) parecem sair de cena dando lugar aos passivos espectadores (Qualquer jogo da seleção da CBF, ou a torcida do Barcelona mostram isso). Vejamos um comentário emblemático sobre essa modificação, dada por Alberto Helena Jr:

"O estádio, como arena, um teatro grego, era uma praça pública onde o povo ia para se manifestar, porque você não tinha outro veículo de comunicação. Hoje em dia, o futebol, que é um entretenimento de massa, encontra o seu palco na televisão, que alcança as grandes multidões e todas as categorias sociais. O estádio passou a ser o teatro e a receber uma ínfima parte do torcedor. E essa pequena parte tem que fazer parte do espetáculo, então a tendência natural é a grande massa vendo futebol pela TV e uma elite nos estádios".

O desenvolvimento desse debate está nesse link aqui.

Pode soar pedante, mas vindo de um jornalista vinculado (esse e tantos outros discursos, sempre elogiosos as novas "arenas") ao grande conglomerado dos canais globo é preciso suspeitar... Esses discursos não estão deslocados de outros interesses... Basta lembrar que outro comentarista dos canais globo, o senhor Ronaldo Nazário é membro da comissão organizadora da copa. Isenção e ética, a gente vê por aqui. Imagino que as contradições que assistimos todos os dias, são ignoradas pelo maior canal midiático de nosso país. Mas como diria Chico Buarque lembrado pelo jornalista Lúcio de Castro: É "a voz do dono e o dono da voz"... De quem será a voz, que fala sobre a copa? Não é a minha e nem a de milhares de brasileiros...

Mais do que tomar partido, precisamos pensar no modo como o futebol vem sendo tratado no Brasil. Não quero estádios desconfortáveis, com banheiros sujos, sem condição de receber torcedores... Mas deveríamos refletir sobre qual o caminho o futebol brasileiro está seguindo. Já que vejo tantos gestores vomitando o termo "legado", refaço a mesma pergunta para as pessoas que pensam não só o futebol, mas a cidade: Qual o legado estamos deixando? Que cidade estamos construindo? A cidade do encontro? Ou a cidade da exceção? Dos ricos, das grandes empresas e corporações... E pensando no filme de Ken Loach, basta olhar para o estacionamento do Mineirão ou do Maracanã... Maracanã, nome de origem indígena ( e a aldeia Maracanã??) e que carregará suas origens somente no nome e nos carros de luxo estacionados.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carnaval de BH: espasmo de alegria ou materialização do cotidiano?

Creio não haver necessidade de uma leitura geral do modo como o carnaval tem se construído em nosso país. Eu indico um texto escrito por Ronald Augusto com o título "A invenção desse e de outros Carnavais". E também não vejo uma necessidade em ler o modo como a prefeitura de BH tem se ausentado nesse evento tão importante, esse papel já foi feito pelo meu amigo Bruno Vieira, é só dar uma olhadinha aqui: "O Carnaval, o Carnaval, o Carnaval".

Eu já havia realizado uma pequena leitura sobre vários eventos realizados em Belo Horizonte nesse post aqui e ao ler o texto do Bruno fiquei pensando nisso. É impressionante como um evento que foi tão lindo como os desfiles das escolas de samba em BH ainda ressaltam os mesmo problemas que eu havia notado durante o show do Andrea Bocceli: um evento excludente. Afinal, só existe a necessidade em colocar muros de metais e catracas na praça da Estação, em um espaço (público diga-se de passagem) onde a seleção mínima de quem pode circular está colocada. Alguns poderiam me questionar: Mas como fazer com um desfile, no qual existe uma necessidade de um espaço mínimo para a circulação das escolas de samba? É um dilema, ao qual sinceramente, não tenho uma resposta pronta. Mas essa resposta passa pelo convite por parte da prefeitura em dialogar com os sujeitos que participam do desfile. Contudo, não acredito em um possível diálogo produzido pela prefeitura de BH, para que não pensem que estou exagerando e para exemplificar minha desilusão com o gestor de BH (expresso em seu prefeito, mas também em outr@s tantos envolvidos), mostro um pequeno vídeo entre vários existentes sobre o prefeito. Obviamente existem outros atores ( escolas de samba e outras entidades) envolvidos nesse processo para esses só existe uma saída: continuar ocupando os espaços públicos, em todos os sentidos pensados e desenvolvidos.

Aliás, é preciso reiterar minha alegria em ver meus amigos participando desse momento. Foi muito bonito ver tantas notícias divulgando o sucesso dos desfiles das escolas de samba em BH.



O Carnaval em BH manifesta algo que está em nosso cotidiano, digo isso pensando nos blocos de rua, dos quais pude participar de alguns e também notícias de vários blocos que aconteciam na cidade desde o dia 02 de fevereiro. Existia em todos esses blocos uma energia muito interessante e a intenção de (re)inventar o carnaval além da intenção de ocupar nossas ruas, apesar de algumas tensões e dilemas sempre colocados nesse movimento - dos quais não incluo a incompetência da administração municipal por motivos óbvios - que só podem ser superados em seu enfrentamento e não na exclusão ou no cerceamento na ocupação dos espaços de sociabilidade.

Um exemplo desse cerceamento está na "república da masturbação" vivida no momento em que maior clássico do nosso Estado, Atlético x Cruzeiro, foram realizados com apenas uma torcida só e irradiavam a incapacidade dos poderes públicos e a sociedade em enfrentar o problema da violência como um fenômeno social/político/econômico e não um dilema isolado e restrito ao futebol. Ainda sobre episódio vi e li muitos jornalistas utilizando o discurso fatalista "não existe outra solução..." e revelando, em minha opinião, um atestado de nossa incapacidade em conviver em sociedade, e também revelando um modo em perceber a cidade que precisa ser questionado.

Os blocos carnavalescos me ensinaram a necessidade em não ler o carnaval como um espasmo social, como tão bem me ensinou E.P. Thompson em seu texto "economia moral da multidão inglesa no século XVIII". Ou seja, o carnaval é também mais um momento de questionar nossa vida, nossa relação com os outros e não somente uma possibilidade em amenizar os sofrimentos, um momento de alienação, ou ainda o ópio do povo. Como o Ronald mostrou no seu texto (aquele que citei acima...), o carnaval é conjugado no plural e e esses, (como o poeta nos lembra, parafraseando Fred 04 do Mundo Livre s/a) são uma grande invenção. Afinal, não é gratuito a concentração do  bloco então em uma região tratada com tanto preconceito como a região da Lagoinha, por exemplo, região onde se encontram os sujeitos tratados como sub raça: moradores de rua, profissionais do sexo etc.






Mesmo com o desinteresse dos órgãos públicos em relação ao carnaval em BH, num momento em que a alternativa para muitos é sim, sair da cidade, foi muito legal testemunhar uma manifestação que não se limitou a região central de BH ou ao bairro de Santa Tereza, testemunhei uma festa linda no Bairro Concórdia, famoso pelo seu futebol, uma festa envolvendo pessoas diferentes e também oferecendo para muitos (me incluo demais nisso) uma nova experiencia. Aliás, o trajeto do bloco "Filhos de Tcha Tcha", mostra sim, os dilemas da cidade, que precisam ser encarados sem nenhum glamour mas que também desmistificam os estigmas que sempre envolvem as pessoas que possuem menor poder aquisitivo econômico, destrói (ou pelo menos busca isso) a mentalidade que apresenta a favela como um lugar habitado por pessoas violentas, mas também mostram como devemos lutar por melhores condições para todos, deixando de lado o fetiche construído pelos turistas que frequentam os morros que nesse processo somente reificam os moradores desses espaços. No mais, o ponto mais importante, foi lindo ver a festa que foi tão bem concluída com um espaço testemunha de tantas festas lindas dessa comunidade: o campo do Inconfidência. O olhar ainda viciado desse observador, vai deixar de irradiar outras tantas coisas lindas que acontecem nesse Bairro, mas, deixo aqui mais um pouco do que eu e Bruno registramos nesse dia.










Essa foto é do meu amigo Bruno Vieira... As outras, são minhas!

Fui totalmente impactado pelas experiencias carnavalescas. Mais uma vez pude vivenciar os espaços públicos, com todos seus dilemas e possibilidades, assim como tenho assistido várias ações pelas cidades em reinventar a cidade. Para encerrar mais um texto torto, pensei em duas imagens. Dois convites sobre a cidade. O primeiro relata a necessidade em destruir "uma" cidade. Sim, essa cidade fruto da exclusão, essa cidade vivida por poucos, essa cidade que ressalta o privilégio a poucos em ocupá-la (não preciso lembrar novamente o dilema posto no "novo" Mineirão e sua "arena" e os sinais da exclusão dos torcedores humildes...) e tenta a todo tempo esconder os corpos indesejáveis que nela não mais poderão habitar (mas essas pessoas sempre resistirão! Sempre!). Obviamente, não estou com isso idealizando uma cidade, mas ressaltando a necessidade de uma cidade que seja um convite para a diverCidade de experiências!
O segundo convite é a ocupação da cidade, a necessidade em (ao contrario do que pensa o "democrático" prefeito) fazer política e ocupar todas as instancias coletivas por nós experimentadas: escola, estádio de futebol, ônibus, praças que nem mesmo as catracas e os muros poderão silenciar!
Enfim, carnaval não se limita aos lindos dias em que os blocos estão nas ruas... Nossos blocos vão passar todos os dias e neles continuaremos sonhando (e vivendo!) por dias melhores nos quais, como me lembrou um dia minha amiga Laila, citando Clarice Lispector: "Liberdade é pouco! O que eu quero não tem nome!".


O primeiro convite: Destruir a cidade! Aquela que nos exclui e nos separa!
Sempre! Ocupar, produzir e resistir!

sábado, 28 de julho de 2012

(re)lembranças: Ocupação Dandara, a Praça da Estação e a ocupação da Cidade.




Domingo, dia 06 de novembro de 2011. Saio de casa (como sempre) correndo temendo não chegar a tempo a  famigerada prova do ENADE. Eu faria aquela prova na Escola Estadual Três Poderes, na região da Pampulha, e eu já havia realizado o itinerário em minha cabeça e chegaria com tempo sobrando na Escola, tempo para conversar com alguns amigos que eu não encontrava a algum tempo e também já tinha em mente que depois da prova, deslocaria para a comunidade Dandara, que fica relativamente próxima a Escola, mas isso explico depois... Contudo, ao chegar à Estação Central - Praça da Estação - em BH, percebi que estava perdido... Um trânsito louco, seguranças mais perdidos do que eu que não sabiam informar onde tomar um ônibus... Havia nesse espaço (praça da estação e Avenida dos Andradas) uma grande estrutura montada. Aconteceria ali o show do grande cantor Andrea Bocelli e a praça estava totalmente cercada por muros de ferro em torno da Praça da Estação e parte da Avenida dos Andradas  e catracas em alguns pontos estratégicos que dariam acesso ao local do show... Por isso, uma saída rápida para tomar um ônibus na praça foi impossível. Nesse momento comecei a pensar: Ora, um espaço público, com catracas e muros? O controle pela catraca serve para limitar quem pode ocupar o espaço da praça, obedecendo (obviamente) os rituais da gestão de Márcio Lacerda (vide a violência usada pela prefeitura para a desocupação da comunidade Eliana Silva, as restrições em relação à ocupação da praça da estação, ou os atos da prefeitura em relação aos artesãos que ocupam a praça 7 em BH). Além disso, para assistir ao show as pessoas deveriam ter ingressos que seriam distribuídos pelos patrocinadores do evento. Aliás, nada contra o cantor em questão, ou as pessoas que foram ao show... Não é preciso lembrar que essa região da cidade possui como grande "problema" os moradores de rua. Nada mais "legítimo" (sob o olhar de quem  "governa" a cidade, é óbvio) do que afastar os “seres indesejáveis" desses espaços. Eis a privatização de um importante espaço de sociabilidade da cidade de Belo Horizonte!


Mas voltando a minha saga...

Ao fim da belíssima prova (que serviu também para comprovar como possuímos bons professores de educação física, e outros que não merecem lembrete nenhum...) estava me organizando para ir para a comunidade Dandara localizada no bairro Céu Azul. Lá aconteceria vários shows (O evento que contou com o show do MC Dedé, Julgamento, Graveola e o Lixo Polifônico e fechando a belíssima noite, a banda de ska Pequena Morte) em solidariedade a grande ocupação que ainda sofre com os desmandos dos "poderosos" do Estado de Minas Gerais (para conhecer o histórico da comunidade e também as suas ações, dá uma olhadinha aqui).

Chegando lá, deparo-me com um cenário bem diferente daquele da praça da estação. Os moradores da ocupação eram os atores envolvidos com a realização do evento: vendendo lanches e bebidas, participando da segurança do evento.

Mas, ora bolas, durante o evento a polícia militar se fez presente (e principalmente durante o show do julgamento, rap de primeira linha...) e em alguns momentos no meio das pessoas! E eu com minha doce inocência, "fiquei feliz", pensei: "legal, eles estão aqui para celebrar!" Mas, engraçado, eles eram muitos!? Assim como no show do Emicida no Barreiro, em que a polícia sempre dá o ar da sua graça. Por sinal, show em que o rapper foi preso pela polícia sob a alegação de “incitar o desacato à autoridade” ao cantar a música "dedo na Ferida". Não vou entrar novamente no mérito desse tema, mas vocês podem ler algo interessante sobre esse episódio na revista fórum, mas ressalto a presença da polícia principalmente em eventos localizados na periferia da cidade (esse tema precisa de maior aprofundamento certo?). Bom, independente dos poréns, foi bacana ver alguns encontros, não vou arriscar uma descrição, deixo um breve vídeo e alguns registros feitos por mim em uma tarde regada a musica, pintura na molecada e um futebol que tinha como limite toda a comunidade Dandara!

Vídeo do sitio I love bubble...














Um recorte do evento na comunidade Dandara...













A frase do dia: "Nem só de polícia vive a paz social..."















Um recorte mal feito (o fotografo não ajuda mesmo!) do belo painel feito pela galera.







Não sei se a foto ajuda, mas o menino segura uma bola... Esse foi o momento do futebol!








Obviamente, existem alguns pontos... Talvez seja possível encontrar pessoas que não tenham relação nenhuma com a luta da Comunidade Dandara e que a sua presença nos shows esteja ligada “meramente” com a música (apesar de perceber complicações nisso, pois não é possível analisar a música como algo isolado da sociedade que a constrói), mas ressalto o envolvimento das pessoas envolvidas com o evento...

Mas, para esse texto ter algum sentido (algumas pessoas precisam disso neh?), remeto-me ao principio desse. É incrível (de alguma forma importante e alentador) ver duas "cidades" dentro de uma só. Em "uma" notei o cerceamento da ocupação pelos moradores, da violência realizada contra àqueles que resistem a essa intervenção (seja por parte da prefeitura, governo do Estado, ou outras instituições), e em outra notei outra possibilidade em se constituir como cidadão, com todos os limites e possibilidades enfrentados pelos moradores de tantas ocupações pelo país e pelo mundo.

Eu penso que esse texto torto está um pouco atrasado, mas como aprendi com Hannah Arendt, ainda vivemos em tempos sombrios, em que confundimos algumas coisas... Nesse ponto, acho que essas linhas extremamente tortas ainda fazem algum sentido para esse sensível "pensador".


PS: Narrei aqui um pouco da experiencia dos moradores da Ocupação Dandara, mas vale lembrar que outras tantas existem em Minas e no País. Citei rapidamente o caso da Ocupação Eliana Silva, Mas outras tantas existem e sofrem os mesmos problemas...

PS2: Não preciso lembrar do absurdo na desocupação da comunidade Eliana Silva, havendo violência ou não (Para não legitimarmos as desocupações "negociadas" que tiram as famílias de espaços próximos ao centro para jogar todos eles para bairro extremamente longe de seus trabalhos e escolas por exemplo) estamos falando de um direito universal... Acesso à moradia como condição primordial para a sobrevivência, simples assim.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mestres do Viaduto... Ou a voz de quem não tem voz



Nesse breve post, divulgo o trabalho realizado pela Ana Estrela e a Barbara Viggiano: o documentário "Mestres do Viaduto". A algumas semanas já conversava um pouco com a Ana sobre esse projeto delas. Bom, estou aqui somente para avisar que o lançamento desse trabalho será no dia 01 de Junho, às 19 horas no Centro Cultural da UFMG... Fica na Av. Santos Dumont, nº 174, Centro. O Centro Cultural fica em frente à Praça Rui Barbosa, que fica em frente a Praça da Estação.

Não vou dizer muita coisa sobre o doc... Segue meu convite para assistirmos juntos ao documentário... É possível aprender sobre a forma como nossas cidades são ocupadas a partir de sua leitura...

Deixo aí, os teasers desse documentário...








Ansioso para a chegada do dia 01 de junho!

quinta-feira, 8 de março de 2012

A quem pertence a Copa do Mundo de 2014?

Bom,

Não vou falar muito... Vou deixar para que todos percebam qual o discurso da entidade que estupra os direitos civis (esta fala é minha). Me impressiona como o Capítal sobrepõem direitos nacionais.

Como eu disse, vou falar pouco... Mas não podemos passar em branco nessa história... Há um reflexos nesse modelo que nega a cidade a todos. Sem futurologia, por que existem fatos inegáveis nessa construção, mas teremos uma copa (pois isso acontece na cidade, ou acreditamos que o metrô chegará a Ribeirão das Neves? ou que as reformas da cidade vão chegar na esquecida região da Lagoinha?) que serve para que Cidade? Mobilidade? mobilidade para quem senhora FIFA?

Bom, deixo aqui o programa "Brasil das Gerais" (clique aqui para ver a parte 2 e aqui para assistir a parte 3 desse programa) do qual participou nosso amigo Luiz Nicácio, membro do GEFuT - Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas da Escola de Educação Física Fisioterapia e Terapia Ocupacional) da UFMG.




E Também, um dos caras que tem debatido muito a realização da copa do mundo: Professor Marcos Alvito (também membro da ANT - Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras)





Para fechar, nós professores, não podemos vacilar, nossos alunos  PRECISAM tomar consciência dessa questão presente nesse novo modelo pensado e erigido pela FIFA. Ensinar futebol, dando a bola para a meninada jogar é muito pouco (em minha opinião é um desserviço ao propósito do espaço escolar.)



No mais, deixo algumas indicações sobre esse tema:

Debate sobre a copa do mundo na USP:

http://www.youtube.com/watch?v=65F-2U2_WlA

Entrevista ao jornal Brasil de Fato com Gegê, do movimento de moradia:

http://www.youtube.com/watch?v=65F-2U2_WlA

Ainda do jornal Brasil de Fato - Copa pra quem?

http://www.brasildefato.com.br/node/6957

O gigante das chuteira de barros

http://www.brasildefato.com.br/node/8614

Um Abraço, na verdade, um abraço triste e melancólico...


terça-feira, 6 de março de 2012

Querem os atores do espaço esportivo encarar o racismo? Aliás nós queremos encarar a existência do Racismo?

Não me lembro quando foi. Devia ser umas 5:00 da manhã, acordo assustado. Eu estava em uma aula na UFMG, e no sonho me lembro de alguns colegas fazendo piadinhas com outro, negro, imitando som de macaco. O que me assustou foi o som de macaco que foi ficando alto, tão alto que fui chutado para fora do sonho.

Eu sonhei, Juan, jogador da Roma da Itália, não. Ele sentiu isso na pele (eu também mas nunca fui hostilizado por centenas de pessoas). Em seu rosto senti o mesmo sentimento que sempre tive quando essas coisas aconteciam (e acontecem) comigo. Vontade de chorar, de sair.

No dia 29 de fevereiro, Wallace, jogador de vôlei do Cruzeiro ao partir para o saque escuta de uma torcedora:

"Vai lá macaco, volta pro zoológico!"




Um parenteses, me lembro que no caso da reação de parte da torcida do Sada/Cruzeiro contra o Michael, jogador do Vôlei Futuro escutei alguns argumentos que me deixaram um pouco decepcionado: "esse caso é meramente esportivo, coisa do jogo..." ou, "disseram isso para desestabilizar o jogador", a diretoria do clube mineiro , à época se posicionou minimizando o fato, tratando como algo meramente esportivo (confira aqui) . Mas agora um caso semelhante acontece com um jogador do Cruzeiro, e com ele um novo posicionamento, enquanto um silencio reina no Minas Tênis Clube. Mas sobre a atitude do Sada/Cruzeiro, essa seria de fato, "meramente esportiva"? ou estariam de fato preocupado com as reações dos torcedores? estariam eles preocupados com os desdobramentos do racismo, da homofobia em nossa sociedade?

Voltando ao caso do Juan, mas ainda tentando pensar ainda nesse tratamento "esportivo" a esses casos, vamos pensar no que disse o manda chuva da FIFA, Joeph Blatter, sobre os casos de racismo no futebol:


"Isso não acontece. Não há racismo, talvez apenas um confronto entre jogadores com palavras ou gestos que não são os mais corretos, mas faz parte do jogo. No fim, um aperto de mão resolve, este tipo de coisa acontece." (http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2011/11/blatter-irrita-imprensa-inglesa-com-comentarios-sobre-racismo.html)


Vamos tentar pensar nessa fala. O dirigente de fato, acredita que não existe racismo no futebol? O futebol está isolado dos problemas sociais? Ou seja, os problemas que acontecem no campo são frutos de um destempero momentâneo e tudo que resta é justamente apertar as mãos? apaziguar? (por sinal, coisa que o Suarez, jogador do Liverpool não quis fazer com Evra, jogador do Manchester, após o jogador uruguaio ser acusado por tratar o francês por tratamento racista.)


Ou pensando ainda na fala do dirigente, a FIFA não quer tocar em um tema que a todo tempo acontece no mundo todo, um tema que exigiria da da instituição um posicionamento contundente?

Nessas suposições é possível perceber vários problemas. Primeiramente expondo fraturas de um espaço supostamente apresentado por alguns veículos de comunicação e algumas pessoas como um lugar repleto de "boas lições" mas também é um espaço, machista, homofóbico, racista. Como toda a nossa sociedade o futebol exacerba os problemas sociais, econômicos, políticos. O espaço esportivo convida a uma conformação, a um apaziguamento, ou "fingir que não ouviu", afinal, são coisas do jogo! (com isso não estou dizendo que sou contra o esporte, mas é preciso refletir sobre o que assistimos e ensinamos!)

Outro ponto que me preocupa é que a reação das federações nesses casos (que são vários) é sempre o de minimizá-los ao plano "esportivo". Ora, A Lazio foi multada (alguns acham que o caso da torcida do clube de Roma não é problema do clube...) e tudo segue como antes. Os torcedores provavelmente continuarão com suas ações em outros jogos. A torcedora no jogo do Cruzeiro contra o Minas, talvez esconda seu racismo novamente...

Mas o que fazer? Penso que a primeira mudança deve ser a postura do jogador. Assim como de nossos alunos, filhos e amigos violentados. Assumir o racismo, o ato homofóbico como uma violência e não como algo isolado, algo que pertence "naturalmente" ao plano esportivo. Assumir e divulgar a sua etnia, afinal, isso acontece com os judeus que escutam piadas e barulhos de câmara de gás da torcida adversária (a torcida do Feyenoord insulta os torcedores do Ajax que se referem como "judeus"). Aos não-brancos (Ladson-Bilings, 2006) é preciso assumir o discurso da diferença cultural, étnica, social. Não podemos acatar o discurso da igualdade (não estou falando em igualdade de direitos, vejam bem), do apaziguamento que somente apaga nossas singularidades, contribuem para a construção de uma sensibilidade em que a menina negra acha seu cabelo "ruim" e busca como padrão (ou o igual) o cabelo "liso" da modelo branca. É preciso essa percepção sem ressentimento, sem ódio.

Pensando no mundo do esporte (que não é uma instituição isolada da sociedade), é preciso tomar esses fatos como um problema social. Não é possível resolver esse problema com um comunicado oficial, ou uma multa aos clubes, é preciso pelo menos um debate aprofundado sobre o problema. Contudo, pensando nos dirigentes, na forma como os atletas são (de)formados, como o futebol busca sempre higienizar esse espaço tão complexo, sinceramente, penso no discurso da luta contra o racismo, a homofobia, o machismo e outras violências como mero escarnio, como mero cinismo global (plim-plim).

O racismo, dentro ou fora de campo/quadra, não pode ser pensado como coisa do jogo, ou que ao jogador e/ou jogadora devem simplesmente "não ligarem para o que aconteceu" da mesma forma como um adulto me dizia enquanto eu chorava por ser humilhado de novo. Se existe uma arma, essa não é o esquecimento, ou o discurso politicamente correto. Só há uma arma: o enfrentamento. Nada mais.

Referencias: 

LADSON-BILLINGS, G. Discursos racializados e epistemologias étnicas. Em: 
DENZIN, N.K.; LINCOLN, Y,S. e colaboradores. Porto Alegre: Artmed/Bookman, 
2006, p. 259-280.



sexta-feira, 4 de junho de 2010

Mais uma desse grande curral chamado Minas Gerais...

Direto do Sitio do Novae...

com esse texto, fico pensando na coisas que escuto. Vivemos em país aparentemente democrático, essencialmente facista. Forcei a Barra? Bom pelo menos os publicitários (eu adoro viver perigosamente...) aprenderam bem com Goebbels, aliás, será que eles lêem o Goebbels?? Fico com a sensação de a publicidade serve como um escárnio aos movimentos sociais...



Dom Aécio I e o Palácio dos Inválidos

28/05/2010

(José de Souza Castro)

Vejo essa campanha publicitária do Governo de Minas Gerais sobre o “choque de gestão”, protagonizada pela atriz Regina Casé, da TV Globo, como um sarcasmo contra milhares de professores estaduais mineiros que estão, neste momento, lambendo as feridas da greve de 47 dias por um salário de 1.321 reais por mês.

Eles não ganharam nada e, além de queda, coice!

Pois, para esses professores humilhados, só pode soar como sarcasmo o bom humor da atriz, que deve ter motivos excelentes para estar feliz. Por que o governo não divulga qual o valor do cachê pago a ela, para que todos nos regozijemos juntos?

“Você sabe o que é choque de gestão?” – pergunta Regina Casé a um pobre homem, e, para facilitar a resposta, ela faz um amplo gesto com a mão. Ele: “Ah, a Linha Verde!”. Ela: “O viaduto…”.

A câmara, piedosamente, não mostra a cara do homem caindo ao chão.

E o que dizer do papo da atriz com uma turma de alunos de uma escola estadual? Ela fica tão feliz com as respostas à pergunta, que até pergunta se um deles quer casar com ela. (Brincadeirinha: Regina Casé é bem casada com um diretor de televisão.) Que grupo alegre de alunos! Tão diferentes de seus pobres professores…

Mas, como gastar tanto dinheiro com uma campanha publicitária para enaltecer o principal programa do governo Aécio Neves e do candidato dele ao governo de Minas, Antonio Anastasia, se não há dinheiro para melhorar o salário dos professores?

Nenhum mistério aí. Pode-se gastar com a campanha publicitária, porque dinheiro não é problema para isso. Aliás, faltasse esse dinheiro, faltaria também o apoio ao governo, dado tão desinteressadamente pela honrada imprensa mineira.

A Síntese da execução fiscal do governo de Minas, até março de 2010, que pode ser vista aqui
http://www.fazenda.mg.gov.br/governo/contadoria_geral/files/natureza0310.htm, informa: Total da Receita: R$ 10.907.645.916,90. Total da Despesa: R$ 9.128.891.680,00.

Com o saldo de mais de 1 bilhão e 778 milhões de reais no fim do governo Aécio Neves, é possível até construir uma nova Cidade Administrativa e um novo palácio. Afinal, quatro palácios para o governador, é muito pouco.

Falando sério: “choque de gestão” é um emblema muito pequeno para as ambições de Aécio Neves, o homem por trás de Antonio Anastásia. Para quem vem sendo apontado pela imprensa brasileira como o dono dos votos dos mineiros, Aécio poderia escolher como símbolo o Sol. Luís XIV, o construtor do Palácio de Versalhes, para quem “L’État c’est moi”, certamente não se importaria em ver seu símbolo tomado de empréstimo pelo Rei dos Mineiros.

O risco é que seus súditos orgulhosos queiram que Aécio também construa outras coisas que não palácios, a exemplo do rei francês. Por exemplo, um Canal Midi, de 240 km, para transportar para dentro do próprio território mineiro as riquezas aqui produzidas. (Não vale o mineroduto de 530 quilômetros para transportar o minério de ferro da região de Conceição do Mato Dentro até o litoral fluminense e dali para outros países.)

Ou um Hôtel des Invalides. Ah, esse Palácio dos Inválidos, construído pelo Rei Sol, pode ser uma boa ideia a ser imitada aqui, de preferência na capital.

É para lá que poderiam se recolher os professores estaduais, depois de se aposentarem! Ou antes disso…