quarta-feira, 4 de março de 2009
Esquerda
By José Saramago
Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras. Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e connosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.
Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Questões...
Contudo, uma pergunta sobre a veiculação dos grandes jornais e canais de televisão deve ser feita:
O que fazia na Venezuela um "observador" da União Europeia? se trata de uma "democracia assistida"?(ou um big brother eleitoral?) Aliás, será que esses "observadores" estavam nos EUA nas ultimas eleições ou na eleição que elegeu Baby Bush e perceberam que nessa eleição HOUVE corrupção? Engraçado... A veja e a globo nem reclamaram do Baby Bush...
Isso é estranho, vejam bem, não é um observador da anistia internacional, ou da ONU é um representante de um orgão internacional que tem interesses no que acontece no seu quintal... se houve corrupção ou não cabe a "oposição" questionar e não utilizar a midia (comprada) para veicular seus interesses...
Resultado dessa confusão midiatica: perderam mais uma vez...
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Algumas do Caso Battisti
ps: Vou postar mais outras coisas sobre esse fato durante a semana...
Por trás do caso Battisti
Por Guilherme Scalzilli em 3/2/2009
A imprensa oposicionista transformou a concessão de asilo político a Cesare Battisti em novo factóide contra o governo Lula. Tudo soa muito previsível, inclusive o tratamento rasteiro dos fatos, como já virou praxe nos grandes diários, impressos e televisionados. Mas a real motivação desses ataques grosseiros esconde-se na retórica tortuosa com que o noticiário envolveu o episódio.
A decisão de Tarso Genro é juridicamente irretocável porque parte do uso de suas atribuições constitucionais e atende à Lei 9474/97, cujo artigo 31 determina:
"[Após o julgamento do Comitê Nacional para Refugiados] a decisão do ministro de Estado da Justiça não será passível de recurso, devendo ser notificada ao Conare para ciência do solicitante, e ao Departamento de Polícia Federal, para as providências devidas."
Portanto, o Conare não é soberano nem inquestionável: mais de vinte decisões suas já foram contrariadas pelo Executivo desde 1998 (cerca de 15% do total). Eis porque a Procuradoria-Geral da República recomendou ao Supremo Tribunal Federal o arquivamento do pedido de extradição de Battisti. O próprio parecer do Conare evitou julgar se os eventuais crimes e as condenações de Battisti foram políticos, aspecto fundamental para o pedido de asilo. Genro supriu essa lacuna.
Asilo a músicos cubanos
Não cabe aqui analisar os detalhes técnicos do processo italiano, tarefa que nenhum veículo empreendeu seriamente – uma abordagem honesta da questão levaria a discutir, por exemplo, se julgamentos sem a presença do réu podem ser decididos a partir de testemunhos contemplados com a delação premiada.
Tampouco vale a pena debater a lisura ou o caráter democrático das instituições italianas, pois nada disso pode ser determinado objetivamente, nem possui qualquer relevância: os fundamentos da democracia conseguem sobreviver ao poder da Máfia? A inevitável subjetividade das decisões judiciais não faz de qualquer julgamento uma atitude política? Os EUA transformaram-se em ditadura ao financiarem um campo de concentração?
A reação pateticamente exagerada do governo italiano atraiu a solidariedade das elites brasileiras, conciliando a arrogância colonizadora com a subserviência do colonizado. Ninguém se pronunciou em dezembro de 2005, depois que o nosso STF concedeu asilo a Pietro Mancini, também acusado de terrorismo na Itália; ou em outubro do ano passado, quando o presidente francês Nicolas Sarkozy negou a extradição da italiana Marina Petrella, que pertenceu às Brigadas Vermelhas.
O governo brasileiro continua sendo acusado pela deportação dos pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara em julho de 2007, mesmo que diversas autoridades contradigam oficialmente essa tese, inclusive o então presidente da OAB-RJ, Wadih Damous. A propósito, ninguém menciona o asilo concedido aos músicos cubanos Miguel Ángel Núñez Costafreda, Arodis Verdecia Pompa e Juan Alcides Díaz, membros da banda "Los Galanes", que desertaram em dezembro daquele ano.
Motivações nada inocentes
Mas Battisti não poderia pleitear o tratamento de refugiado, pois ele é considerado "terrorista" pela grande imprensa nacional (o jornalista Sidney Rezende chegou ao cúmulo de compará-lo a Osama bin Laden). E, como sabemos, terroristas não merecem benefícios. Segundo a lógica de George W. Bush, abraçada pelos editoriais, eles sequer possuem direitos.
Eis que chegamos ao cerne da questão. Sabemos que a acepção genérica do terrorismo aplica-se a qualquer pessoa ou grupo, independente dos crimes cometidos, das circunstâncias ou das ideologias envolvidas. "Terroristas" eram os participantes da luta armada que combateu a ditadura militar, mas não os integrantes da resistência às ocupações fascistas durante a II Guerra Mundial. São os guerrilheiros das Farcs, mas não os paramilitares colombianos. São os extremistas muçulmanos, mas não os mercenários a serviço das petrolíferas estadunidenses.
Portanto, o insignificante Battisti é um terrorista apenas porque alguém decidiu imputar-lhe a alcunha tenebrosa do momento. Mas uma simples escolha semântica esconde motivações nada inocentes: o retorno à nomenclatura utilizada pelos militares cumpre um papel estratégico.
Não há coincidência
Criminalizar as militâncias de esquerda, anulando sua legitimidade política, aproxima-as do banditismo comum já estigmatizado pelo noticiário atual. Esvazia, assim, o repertório de valores e as reivindicações tradicionais dos movimentos socialistas (em geral, não apenas das vertentes revolucionárias). E joga um manto de suspeição sobre os combatentes dos anos de chumbo, alguns ocupando cargos de primeiro escalão no governo Lula. Desnecessário lembrar a atuação passada de Dilma Rousseff e suas pretensões eleitorais para dimensionar o alcance dessa manobra.
A luta armada vê-se reduzida ao fanatismo terrorista, como se, assim, as vítimas das atrocidades da ditadura perdessem o direito de exigir a punição dos seus algozes. Como não é possível fazer da tortura e do assassinato instrumentos políticos, todos os antagonistas envolvidos são transformados em criminosos ordinários. Desta forma, a Lei de Anistia beneficiou-os por igual, não podendo ser revista sem acarretar efeitos generalizados.
Os veículos de comunicação que promovem a vilanização histérica de Cesare Battisti apoiaram o golpe de 1964, silenciaram durante o regime, defendem a perpetuação da Lei de Anistia e estão comprometidos com projetos de poder que se beneficiariam do desgaste do governo federal. A pressão midiática sofrida pelo STF no julgamento da constitucionalidade das denúncias do chamado mensalão repete-se, agora, às vésperas de um posicionamento acerca de ações judiciais contra agentes da repressão.
Não há qualquer coincidência nesse histórico.
Nota do blogueiro preguiçoso: acho engraçado que durante a ditadura militar os guerrilheiros eram chamados (assim como Cesare Battisti hoje) de terrorista...
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Sobre Israel e o "novo" Ataque de Israel à Faixa de Gaza - parte 2
Na tentativa de demonstrar outros fatores que nos ajudem entender a ação criminosa de Israel à Faixa de Gaza, estou publicando um texto do Jornalista Robert Fisk do The Indenpendent... Para quem tá afim de trocar uma ideia sobre o tema, boa leitura!!
"Por que nos odeiam tanto?!"
Que, pelo menos, ninguém minta que não sabe por quê.
Robert Fisk - 7/1/2009
The Independent , 7/1/2009
Assim, mais uma vez, Israel abriu as portas do inferno sobre os palestinenses. 40 refugiados civis mortos numa escola da ONU, mais três noutra. Nada mau, para uma noite de trabalho do exército que acredita na "pureza das armas". Não pode ser surpresa para ninguém.
Esquecemos os 17.500 mortos – quase todos civis, a maioria mulheres e crianças – de quando Israel invadiu o Líbano, em 1982? E os 1.700 civis palestinos mortos no massacre de Sabra-Chatila? E o massacre, em 1996, em Qana, de 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, numa base da ONU? E o massacre dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense? E os 1.000 mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis?
O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelenses algum dia tenham-se preocupado com poupar civis. "Israel toma todo o cuidado possível para evitar atingir civis", disse mais um embaixador de Israel, apenas horas antes do massacre de Gaza.
Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. Se George Bush tivesse tido coragem para exigir imediato cessar-fogo 48 horas antes, todos aqueles 40 civis, velhos, mulheres e crianças, estariam vivos.
O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. "Atrocidade" é pouco, para descrever o que aconteceu. Falaríamos de "atrocidade" se o que Israel fez aos palestinenses tivesse sido feito pelo Hamás. Israel fez muito pior. Temos de falar de "crime de guerra", de matança, de assassinato em massa.
Depois de cobrir tantos assassinatos em massa, pelos exércitos do Oriente Médio – por sírios, iraqueanos, iranianos e israelenses – seria de supor que eu já estivesse calejado, que reagisse com cinismo. Mas Israel diz que está lutando em nosso nome, contra "o terror internacional". Israel diz que está lutando em Gaza por nós, pelos ideais ocidentais, pela nossa segurança, pelos nossos padrões ocidentais.
Então também somos criminosos, cúmplices da selvageria que desabou sobre Gaza.
Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo, já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinenses mataram refugiados palestinenses; que os palestinenses desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinenses, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinenses usam refugiados inocentes como escudos humanos.
O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelense; os soldados israelenses assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menachem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel. Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelenses disseram que a base servia de esconderijo para o Hizbóllah. Mentira.
Os mais de 1.000 mortos de 2006 – uma guerra deflagrada porque o Hizbóllah capturou dois soldados israelenses na fronteira – não foram crimes do Hizbóllah; foram crimes de Israel.
Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira.
Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelenses, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelenses. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos caminhões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação.
12 anos depois, outro helicóptero israelense atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima – outra vez, soldados israelenses ordenaram que saíssem da ambulância – e assassinaram três crianças e duas mulheres. Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hizbóllah. Mentira.
Cobri, como jornalista, todas essas atrocidades, investiguei-
Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras. Primeiro, virá a mentira do "culpem o Hamás" – como se o Hamás já não fosse culpado dos próprios crimes! Depois, talvez requentem a mentira dos cadáveres desenterrados para fotografias. E com certeza haverá a mentira do "homem do Hamás na escola da ONU". E com absoluta certeza virá também a mentira do anti-semitismo. Os líderes ocidentais cacarejarão, lembrando ao mundo que o Hamás rompeu o cessar-fogo. É mentira.
O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11; quando bombardeou e matou seis palestinenses em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinenses.
Sim, os israelenses merecem segurança. 20 israelenses mortos nos arredores de Gaza é número escandaloso. Mas 600 palestinenses mortos em uma semana, além dos milhares assassinados desde 1948 – quando a chacina de Deir Yassin ajudou a mandar para o espaço os habitantes autóctones dessa parte do mundo que viria a chamar-se Israel – é outro assunto e é outra escala.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Sobre Israel e o "novo" ataque à Faixa de Gaza
Na verdade, não vejo nenhuma novidade nessa ação de Israel... isso sempre aconteceu porem, os defensores do estado Israelense (preocupados com o interesse do capital...) escondiam isso...
O problema é que não estamos aprendendo com os erros do passado...
Reflexões devem ser feitas pelos "chefes" de estado...
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Ps: Fonte - Diário Catarinense
Esporte, identidades e os limites do corpo
Ao encerrar a carreira, o tenista Gustavo Kuerten queixou-se de que o instrumento pelo qual se fez campeão tenha sido o seu próprio algoz
Gustavo Kuerten abandonou a carreira de jogador profissional de tênis na última edição do Torneio de Roland Garros, o mesmo torneio que o consagrara em 1997. É muito provável que o adeus de Guga seja definitivo, contrariando vários casos de ídolos nacionais e estrangeiros que protagonizaram diversas "despedidas", fosse porque se engajaram em novos projetos profissionais, como Pelé - que, em 1975, foi jogar no New York Cosmos depois que abandonara o futebol no ano anterior - , ou porque não suportaram o desprazer de não seguir competindo, mesmo com performances aquém das que alcançaram em seus anos de glória, como Michael Jordan. É difícil que Guga volte às quadras porque seu desempenho nos últimos anos já vinha sendo bastante insatisfatório em função de uma lesão no quadril que lhe limitara os movimentos e causava dores insuportáveis, mesmo para um atleta de altíssimo rendimento, como foi seu caso. O ídolo tentou, mas, como várias vezes foi repetido ao longo das últimas semanas da carreira, foi derrotado pela dor.
Naquele mesmo ano de 1997, vivendo em país estrangeiro, surpreendi-me enormemente quando li e ouvi sobre a sensação do Aberto da França: um brasileiro, com sobrenome e passaporte germânicos, como destacavam os jornais alemães, avançava de forma convincente no principal torneio anual de tênis disputado em piso de saibro. Fiquei, como quase todos, impressionadíssimo e contente com a performance de Guga, que, batendo um a um, tenistas experientes e renomados, alcançou a vitória final numa tarde de maio, um domingo.
Não foi a única vitória de Guga, nem na França nem no nobre saibro. Aquele primeiro grande triunfo se estendeu nos anos seguintes, "trazendo de volta", como tantas vezes se leu e ouviu, a alegria das manhãs de domingo, momento em que geralmente aconteciam as tantas finais vencidas pelo catarinense, campeão freqüente em fuso horário algumas horas à nossa frente. Essa "volta" remetia a outro ídolo esportivo nacional, Ayrton Senna, vencedor de corridas de Fórmula-1, freqüentemente também por volta do horário do almoço dominical. "Guga é Senna" chegou a dizer a economista Elena Landau, e o próprio tenista não escapou de se referir ao ídolo que o antecedeu, consagrado campeão de um esporte que os brasileiros aprenderam a apreciar. País de tantas desigualdades, talvez não seja tão surpreendente o fascínio pelo nosso maior tenista, nem pelas máquinas de correr que reluzem em velocidade espantosa. É possível que tanto o tênis quanto as corridas de automóveis sejam esportes mais interessantes quando mediados pelas câmeras televisivas do que ao vivo, exceção feita ao fã ardoroso ou à experiência eventual de tomar parte do circo por completo, comparecendo às arquibancadas para, de perto, deixar-se mergulhar no banquete sensorial dos grandes eventos esportivos. Nossa sensibilidade, afinal, está muito mais acostumada à transmissão televisiva dos esportes, em especial do futebol, do que à presença ao vivo nos estádios. O espetáculo esportivo, pelo menos desde Leni Riefensahl, é produzido para ser televisionado, construído para ser captado na organização onírica das imagens a que assistimos em nossas casas. Guga e suas roupas coloridas, cabelos compridos, gestos largos e inusitados na quadra, arroubos de alegria e eventuais destemperos, não é uma exceção entre os especulares atletas que, além de competirem contra seus adversários, atuam, como anteviu Walter Benjamin, para a câmera.
É a força das imagens que constrói, em grande medida, as identidades que agenciamos e por meio das quais nos reconhecemos comunitariamente. Da infinita disputa pela imagem de Guga e na correspondente tentativa de agenciá-la em favor desta ou daquela leitura de o que seria nossa identidade (a insistente pergunta pelo que somos), não escapou um de nossos melhores intérpretes, o antropólogo Roberto DaMatta. "Malandro", como teria sido Senna, temperamental, apegado à família, eis o Guga brasileiro de DaMatta. Retomando Gilberto Freyre, DaMatta viu no desempenho de Guga a globalização, que faz espelhar, localmente, cada brasileiro: nosso melhor tenista respeitaria, ao cultivar um "penteado afro", o "mito das três raças".
O requerimento da imagem de Guga nas disputas pelas identidades não impediu que ele fosse visto como um "manezinho da Ilha", figura local que "colocou Florianópolis no mapa", torcedor do Avaí Futebol Clube (os jornais alemães já destacavam o fato como pitoresco, em 1997), alguém que poderia ser encontrado nas praias de Florianópolis, praticando surfe ou apenas se divertindo com os amigos. Descendente de alemães, "manezinho da Ilha", treinado por um profissional oriundo do Rio Grande do Sul, expressão do mito das três raças, pivô de uma crise entre o Comitê Olímpico Brasileiro e uma marca de produtos esportivos que o patrocinava, fato que por pouco não lhe deixou fora dos Jogos de Sydney 2000: parece que nada se deixa escapar, em tempos de atletas espetaculares e de narrativas heróicas sobre eles, da imagem de Gustavo Kuerten. Um pouco de nossos sonhos e projeções, o que gostaríamos de ser, um guerreiro que sozinho enfrentou todos os grandes tenistas de seu tempo. E os derrotou. Na falta de projetos coletivos e de utopias, fiquemos com a figura que simboliza a pureza do corpo forte, indivisível, completo, vencedor. Certamente não é apenas isso que nos fascina no esporte em geral e em Guga em particular, mas ele, vitorioso por nós, nos alivia de nossos fracassos e, principalmente, do gosto amargo de nossa falta de futuro.
Mas o fato é que Guga também decaiu, encerrando sua carreira de enorme sucesso em posição mais que discreta no ranking mundial, um lugar que quase contrasta com o caráter de espetáculo que sua turnê de despedida ganhou. Claro que entrou em jogo o reconhecimento por sua trajetória, e por isso pouco ou nada se ouviu de críticas ao tenista, muito mais se escutou, aqui e ali, lamentos que apenas sucederam os meses de solidariedade pelo anunciado esforço de recuperação física. Como outros atletas de sucesso, Guga reclamou pouco do destino que lhe impingiu tantas dores corporais. Disse, no entanto, que se o corpo permitisse, poderia seguir jogando bem por mais alguns anos, lamentando que o instrumento por meio do qual se fez campeão lhe tenha pregado essa peça. Já em seus tempos de glória, em mais de um torneio se viu, e em pelo menos uma vez seu treinador declarou, em alto e bom som, que a dor e o sofrimento faziam parte do cotidiano de Guga, tributo a ser pago pelos troféus, pela fama. Nenhum adversário, mas seu próprio corpo doloroso foi-lhe o algoz final.
Ao dizer que a dor lhe tirou a possibilidade de seguir jogando em alto nível, Gustavo Kuerten mostrou uma face pouco lembrada da competição esportiva, esta forma tão contemporânea de celebrar a crença na linearidade do progresso sem considerar suas contradições. No esporte, trata-se de aprimorar o corpo em sentido muito específico, tomando-o, de certa forma, como algo a ser dominado, vencido. O corpo é o instrumento do sucesso, mas também o seu limite. Theodor W. Adorno disse, certa vez, que há no esporte um impulso à crueldade e ao masoquismo. Mirando os atletas, é de se perguntar em que plano se coloca uma ética em relação ao corpo e à vida nesses tempos de corpos que apenas parecem ser ilimitados. É possível que encontremos uma resposta não nas grandes narrativas de feitos heróicos no esporte, como os de Guga, mas ao pensarmos sobre a fascinação que eles nos trazem ao olvidarmos (e celebrarmos) da dor que lhes é inerente. Afinal, seria bom que não nos esquecêssemos daquilo que um "maldito" filósofo uma vez ensinou: que, por sorte, há limites no corpo, e eles nos fazem sempre recordar que não podemos ser Deus.
* Professor do Centro de Ciências da Educação da UFSC
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Sobre o pior dia do Ano...
Bom, alguem aí se lembra da invasão digna dos tempos da ditadura militar ao Instituto de Geociências da UFMG (IGC)???? Não lembra? não tem problema... vou publicar aqui o que aconteceu nesse dia...
Penso ser necessário começar refletindo o que aconteceu no dia 03/04/08.
Primeiro a minha sensação...
Esse dia eu estava na Faculdade de Educação, fechando alguns assunto de pesquisa. Eram aproximadamente 18:00, quando percebo um numero de viaturas dentro do Campus (o que é absurdo, já que a Universidade Federal é um espaço FEDERAL e quando acontece algo lá dentro quem a aparece? os federais!!!). Como no ano anterior eu me percebi na mira da arma de um policial, pensei "sou preto logo me grampeam, vou embora." Entro no ônibus e quando passo em frente ao IGC vejo, juro por Deus, um grande numero de viaturas, um Helicoptero, vários policiais... Minha primeira reação foi "Puta que pariu, mataram o Mateus (meu amigo estudante do curso de geografia e militante do movimento estudantil)" Porém, esses são os fatos que eu percebi, dentro do ônibus, atônito e impotente...
Contudo, vale a pena analisar o que aconteceu lá no Instituto de Geociências...
Primeiramente, o video no qual um Estudante é preso por "desacato a autoridade"
E os videos da "ação policial" digna de Hollywood, ou Max Payne no IGC...
Bom, o que aconteceu nesse momento foi o seguinte: Os alunos do IGC queriam passar o filme ‘Grass Maconha’ (um documentário da revista superinteressante), ao que parece a diretoria do IGC não permitiu a exibição do filme alegando que o conteudo do filme fazia apoligia ao uso da maconha. Como a diretoria do IGC não "permitiu" a exibição do filme, a segurança da univerdidade foi acionada e posteriormente a policia foi "chamada".
As vozes oficiais dizem:
fonte - http://www.ufmg.br/online/arquivos/008164.shtml
COMUNICADO DA REITORIA À COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA
sexta-feira, 4 de abril de 2008, às 11h44No dia 2 de abril, p.p., a Reitora em exercício, Professora Heloisa Maria Murgel Starling, recebeu o ofício IGC nº 086/2008, da Diretora do Instituto de Geociências, no seguinte teor: “Conforme documentação anexa, enviada à Procuradoria Jurídica, informamos que está programada a exibição do filme ‘Grass Maconha’ na arena deste Instituto de Geociência, amanhã – 03 de abril, às 17h30. Esclarecemos que esta atividade não foi autorizada pela Diretoria, conforme e-mails enviados ao Diretório Acadêmico, que informou não ser responsável pela programação do mesmo. Em função da demonstração do discente Wander Lúcio Mourão Júnior – matrícula 2003022630, que não é integrante do Diretório Acadêmico, em permanecer com os cartazes afixados e afirmar que a exibição do referido filme seria mantida, solicitamos o reforço da segurança universitária nas dependências desta Unidade no dia 03 de abril, a partir das 17 horas.”
Ao ofício acima mencionado foi aposto o seguinte despacho pela Chefia de Gabinete: “De ordem da Reitora em exercício, autorizo que a chefia de Segurança da UFMG garanta o cumprimento da deliberação da Diretora do IGC.”
No final da tarde de ontem, 3 de abril, a Reitoria tomou conhecimento de que a ordem da Diretora do IGC não havia sido respeitada. Ocorria tumulto naquela Unidade Acadêmica, com intervenção da Polícia Militar, agressões entre os presentes, um estudante detido por desacato à autoridade e dois outros encaminhados ao Pronto Socorro, com escoriações.
Frente a tais fatos, a Reitora em exercício imediatamente tomou as seguintes providências: a) entrou em contato com o Comando da Polícia Militar para esclarecer o ocorrido; b) solicitou a presença da Diretora do IGC ao Gabinete para mais esclarecimentos; c) solicitou que o Procurador-Geral, Professor Fernando Jayme, acompanhasse o registro policial relativo ao estudante detido, na Delegacia Adida ao Juizado Especial Criminal –DAJEC; d) solicitou que o Assessor Especial da Reitoria para a área de Saúde, Professor Paulo Pimenta de Figueiredo Filho, acompanhasse os estudantes em atendimento no Pronto Socorro.
A Reitoria lamenta que tais fatos, inteiramente estranhos à civilidade que caracteriza o ambiente acadêmico, tenham ocorrido; repudia qualquer ação de violência praticada; informa que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar e esclarece que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades.
Heloísa Maria Murgel Starling
Vice-reitora da UFMG
Diretoria do IGC: essa nota foi colocada na primeira página do sitio do IGC: http://www.igc.ufmg.br/
Ontem, dia 03 de abril à noite, o Instituto de Geociências foi palco de um enfrentamento entre polícia militar e alunos.
O incidente foi iniciado a partir de convocação pública, através de cartazes, feita de forma anônima para realização de atividades na arena do IGC. Estas atividades foram desautorizadas pela Diretoria, tendo em vista o fato de não terem sido previamente acordadas, informação necessária para autorização segundo normas do Instituto e nem terem sido identificados os organizadores, uma vez que o DA/IGC negou participação.
Considerando nossa responsabilidade estatutária e regimental, pelo Instituto de Geociências, frente a rumores de que o filme seria passado à revelia da Direção, solicitamos à Reitoria um reforço da vigilância interna da UFMG. Quando a diretoria foi informada da possibilidade de confronto, imediatamente procedeu à autorização para que o filme fosse exibido, exatamente para evitar que uma discussão interna fosse transformada em problema policial.
A Diretoria do IGC pede desculpas à comunidade do IGC por não ter conseguido evitar o conflito e se solidariza com os alunos e professores que foram, indevidamente, enredados em uma tragédia policialesca, em alguns casos sofrendo agressões morais e físicas. Como sempre fizemos, manteremos nossas portas abertas ao diálogo e desejamos que nunca mais se repita o ocorrido.
Os acontecimentos que levaram destes fatos à entrada da polícia no Campus não estão claros e devem ser apurados, pois o IGC foi invadido por força policial.
A Direção do IGC
Depois dos fatos algumas questões são necessarias:
Como a reitoria pode proibir a exibição de um filme? Ou então manipular o que pode e o que não pode ser exibido na universidade?
Vamos recorrer ao artigo 207 do terceiro capitulo da constituição federativa do Brasil: "As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão."
Bom, o que eu estranhei foi o fato de haver a necessidade de se pedir permissão para se exibir um filme. Imaginem só, isso funciona mais ou menos como os sindicatos no governo de Getúlio Vargas, que só podia se expressar se o presidente deixasse, ou seja, a liberdade dos alunos é algo que só existe se os professores deixarem ou não... Pensando nisso, como formar professores, profissionais autonomos, se não existe a possibilidade de debates, ou se isso só acontece quando o universidade o faz?
Alguns colegas (alunos...) alegam que os alunos do IGC estavam fazendo "apologia ao uso da maconha". Bom, vamos aos fatos: De acordo com o dicionário.
apologia
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do Gr. apologia, defesa, justificaçãoEngraçado o discurso vomitado... Existe a possibilidade de um discurso não apológico? A não ser que você seja um analfabeto politico... rs...
s. f.,discurso para louvar, defender ou justificar;louvor;defesa.
Na semana da invasão, apenas a faculdade de educação( é por isso que gosto da FaE) se posicionou sobre os fatos... uma olhadinha no conteúdo da carta é imprescindível...
MANISFESTAÇÃO DA CONGREGAÇÃO DA FAE SOBRE A AÇÃO POLICIAL NO IGC
Fonte: http://www.fae.ufmg.br/manifesto_congrega%E7%E3o_fae.doc
A Congregação da Faculdade de Educação, reunida no dia 07/04/08, considerando os fatos ocorridos no IGC no dia 03/04/08, vem à público manifestar sua posição, nos termos que se seguem:
A ação policial de que a Universidade foi vítima é de enorme gravidade. O último precedente dessa natureza aconteceu há mais de 30 anos, na tentativa de realização do Terceiro Encontro Nacional dos Estudantes, na Faculdade de Medicina. Naquela ocasião a polícia invadiu e prendeu os estudantes, sem que nenhum ato de violência fosse praticado, dada a intervenção direta do então Reitor Eduardo Osório Cisalpino que lá esteve e saiu junto aos estudantes quando estes foram levados aos ônibus que os levariam presos. Há que se lembrar a dimensão dos fatos naquela ocasião: o terceiro ENE tentava reorganizar a UNE, banida por lei da Ditadura Militar. Tratava-se portanto de assunto de segurança nacional numa época de Ditadura.
O incidente que gerou a violência de quinta-feira era infinitamente menos grave e de pouca importância para que tivesse gerado o que gerou. Além disso, os estudantes que tentavam fazer a reunião estavam assegurados pela constituição federal, que no seu artigo 5º garante a liberdade de manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato (inciso IV); a liberdade de expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (inciso IX); e finalmente assegura que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (inciso XVI).
Consideramos que o incidente reflete a nossa perda de identidade político-acadêmica. Transferimos nosso poder de decisão para outras instâncias. Nesse incidente, houve uma transferência de autoridade dos dirigentes para as forças repressivas (fossem essas a segurança interna ou a polícia). Estamos incorporando em nossas práticas uma visão criminalizadora da juventude, em que qualquer ato de rebeldia é identificado como ameaça à ordem pública. Excessos, radicalismos ocorrem como sempre ocorreram e ocorrerão. Mas a Universidade, e mais exatamente a UFMG, não pode pretender ser para seus alunos apenas o espaço de afirmação da excelência acadêmica. Ela tem um papel de espaço possível de exercício da rebeldia (quanto mais no mundo conformista de hoje), que atravessa a história da juventude e suas expressões.
Além disso, a polícia não pode invadir o campus sem ser convocada pelo(a) reitor(a). A universidade é território federal e a ação da polícia feriu o artigo 144º da Constituição Federal, que prevê as atribuições das diferentes forças policiais. Houve abuso de poder e extrapolação de competência nesse caso. Ao chamado, se por acaso ocorreu, a polícia deveria ter simplesmente respondido que ações na universidade são da competência da polícia federal.
Nesse sentido, a Congregação da Faculdade de Educação manifesta o apoio ao esclarecimento isento das responsabilidades pelo episódio, e solicita que seja exigido da polícia um pedido de desculpas e a apuração e possível punição dos responsáveis. Entendemos que sem esses encaminhamentos a universidade não vai poder curar sua ferida e o estado de direito que atualmente vigora na democracia brasileira terá sido violentado sem maiores conseqüências.
Sala da Congregação da Faculdade de Educação, 07 de abril de 2008
Após tudo isso, houve a ocupação da reitoria pelos estudantes, várias assembléias, debates e uma sindicância foi convocada... Mas, nada foi comprovado, ninguem foi penalizado. Creio apenas em uma coisa, conforme aprendi com Marx, existe uma grande diferença entre aparência e essência... Acho que vivemos em um periodo que talvez seja pior do que a ditadura militar, pois, acreditamos que vivemos em uma sociedade "democrática", onde podemos nos expressar, mas... a primeira possibilidade de um grupo querer pensar de forma diferente o que acontece? o estado apresenta suas armas (vocês se lembram de Eldorado dos carajás? ou dos Chiapas? ou ainda da Palestina?)
Para finalizar essa looooonga postagem uma frase:
"A exigêcia que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a Educação." Theodor Adorno - "Educação após Auschwitz"
Parece que estamos sendo educados no modo "Auschwitz"... A violência ainda continua sendo a unica justificativa... Eu odeio lembrar desse dia, ou da forma como fomos tratados pelos nossos colegas de curso no dia seguinte, me senti pobre, senti que nossa sociedade se contenta com a pobreza, com o empobrecimento de nossas relações... sem mais...
Abraços e tenham todos um ano um pouco melhor...
