segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sobre Israel e o "novo" Ataque de Israel à Faixa de Gaza - parte 2

Na tentativa de demonstrar outros fatores que nos ajudem entender a ação criminosa de Israel à Faixa de Gaza, estou publicando um texto do Jornalista Robert Fisk do The Indenpendent... Para quem tá afim de trocar uma ideia sobre o tema, boa leitura!!





"Por que nos odeiam tanto?!"
Que, pelo menos, ninguém minta que não sabe por quê.

Robert Fisk - 7/1/2009

The Independent , 7/1/2009


Assim, mais uma vez, Israel abriu as portas do inferno sobre os palestinenses. 40 refugiados civis mortos numa escola da ONU, mais três noutra. Nada mau, para uma noite de trabalho do exército que acredita na "pureza das armas". Não pode ser surpresa para ninguém.


Esquecemos os 17.500 mortos – quase todos civis, a maioria mulheres e crianças – de quando Israel invadiu o Líbano, em 1982? E os 1.700 civis palestinos mortos no massacre de Sabra-Chatila? E o massacre, em 1996, em Qana, de 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, numa base da ONU? E o massacre dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense? E os 1.000 mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis?


O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelenses algum dia tenham-se preocupado com poupar civis. "Israel toma todo o cuidado possível para evitar atingir civis", disse mais um embaixador de Israel, apenas horas antes do massacre de Gaza.


Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. Se George Bush tivesse tido coragem para exigir imediato cessar-fogo 48 horas antes, todos aqueles 40 civis, velhos, mulheres e crianças, estariam vivos.


O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. "Atrocidade" é pouco, para descrever o que aconteceu. Falaríamos de "atrocidade" se o que Israel fez aos palestinenses tivesse sido feito pelo Hamás. Israel fez muito pior. Temos de falar de "crime de guerra", de matança, de assassinato em massa.


Depois de cobrir tantos assassinatos em massa, pelos exércitos do Oriente Médio – por sírios, iraqueanos, iranianos e israelenses – seria de supor que eu já estivesse calejado, que reagisse com cinismo. Mas Israel diz que está lutando em nosso nome, contra "o terror internacional". Israel diz que está lutando em Gaza por nós, pelos ideais ocidentais, pela nossa segurança, pelos nossos padrões ocidentais.


Então também somos criminosos, cúmplices da selvageria que desabou sobre Gaza.

Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo, já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinenses mataram refugiados palestinenses; que os palestinenses desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinenses, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinenses usam refugiados inocentes como escudos humanos.


O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelense; os soldados israelenses assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menachem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel. Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelenses disseram que a base servia de esconderijo para o Hizbóllah. Mentira.


Os mais de 1.000 mortos de 2006 – uma guerra deflagrada porque o Hizbóllah capturou dois soldados israelenses na fronteira – não foram crimes do Hizbóllah; foram crimes de Israel.

Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira.


Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelenses, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelenses. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos caminhões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação.


12 anos depois, outro helicóptero israelense atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima – outra vez, soldados israelenses ordenaram que saíssem da ambulância – e assassinaram três crianças e duas mulheres. Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hizbóllah. Mentira.

Cobri, como jornalista, todas essas atrocidades, investiguei- as uma a uma, entrevistei sobreviventes. Muitos jornalistas sabem o que eu sei. Nosso destino foi, é claro, o mais grave dos estigmas: fomos acusados de anti-semitismo.


Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras. Primeiro, virá a mentira do "culpem o Hamás" – como se o Hamás já não fosse culpado dos próprios crimes! Depois, talvez requentem a mentira dos cadáveres desenterrados para fotografias. E com certeza haverá a mentira do "homem do Hamás na escola da ONU". E com absoluta certeza virá também a mentira do anti-semitismo. Os líderes ocidentais cacarejarão, lembrando ao mundo que o Hamás rompeu o cessar-fogo. É mentira.


O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11; quando bombardeou e matou seis palestinenses em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinenses.


Sim, os israelenses merecem segurança. 20 israelenses mortos nos arredores de Gaza é número escandaloso. Mas 600 palestinenses mortos em uma semana, além dos milhares assassinados desde 1948 – quando a chacina de Deir Yassin ajudou a mandar para o espaço os habitantes autóctones dessa parte do mundo que viria a chamar-se Israel – é outro assunto e é outra escala.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Sobre Israel e o "novo" ataque à Faixa de Gaza

Como não poderia deixar de ser, gostaria de iniciar essa reflexão com uma frase "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a Educação." Theodor Adorno... A mesma frase? perguntam alguns, sim! A mesma frase. Por que? Auschwitz, significa violência desmedida (como se houvesse violência na medida certa...), arbitrariedade politica e "etcetera e tal..." Contudo uma pergunta deve ser feita? Recorrendo ao presidente do Irã, onde está a ONU? Essa instituição nasceu com o interesse de mediar conflitos? Sim. Maaaaaasssss recorrendo novamente a Marx existe uma distancia muito grande entre aparência e essência... Por que? Todos sabem que o Estado de Israel sempre foi aliado aos interesses do imperialismo estadunidense. Enquanto os EUA ditarem as regras nesse planetinha as coisas funcionarão dessa forma... O mais irônico é ver uma nação formada em sua maioria por judeus saindo do posto de oprimido para o papel de opressor...


Na verdade, não vejo nenhuma novidade nessa ação de Israel... isso sempre aconteceu porem, os defensores do estado Israelense (preocupados com o interesse do capital...) escondiam isso...


O problema é que não estamos aprendendo com os erros do passado...

Reflexões devem ser feitas pelos "chefes" de estado...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ultimos dias de ano e vale a pena postar textos legais... mais um indicado por Alexandre Vaz, dessa vez fazendo uma interessante reflexão sobre o esporte... Boa leitura pra quem anda frequentando esse espaço!! Abraços!!!


Ps: Fonte - Diário Catarinense


Esporte, identidades e os limites do corpo

Ao encerrar a carreira, o tenista Gustavo Kuerten queixou-se de que o instrumento pelo qual se fez campeão tenha sido o seu próprio algoz

Gustavo Kuerten abandonou a carreira de jogador profissional de tênis na última edição do Torneio de Roland Garros, o mesmo torneio que o consagrara em 1997. É muito provável que o adeus de Guga seja definitivo, contrariando vários casos de ídolos nacionais e estrangeiros que protagonizaram diversas "despedidas", fosse porque se engajaram em novos projetos profissionais, como Pelé - que, em 1975, foi jogar no New York Cosmos depois que abandonara o futebol no ano anterior - , ou porque não suportaram o desprazer de não seguir competindo, mesmo com performances aquém das que alcançaram em seus anos de glória, como Michael Jordan. É difícil que Guga volte às quadras porque seu desempenho nos últimos anos já vinha sendo bastante insatisfatório em função de uma lesão no quadril que lhe limitara os movimentos e causava dores insuportáveis, mesmo para um atleta de altíssimo rendimento, como foi seu caso. O ídolo tentou, mas, como várias vezes foi repetido ao longo das últimas semanas da carreira, foi derrotado pela dor.

Naquele mesmo ano de 1997, vivendo em país estrangeiro, surpreendi-me enormemente quando li e ouvi sobre a sensação do Aberto da França: um brasileiro, com sobrenome e passaporte germânicos, como destacavam os jornais alemães, avançava de forma convincente no principal torneio anual de tênis disputado em piso de saibro. Fiquei, como quase todos, impressionadíssimo e contente com a performance de Guga, que, batendo um a um, tenistas experientes e renomados, alcançou a vitória final numa tarde de maio, um domingo.

Não foi a única vitória de Guga, nem na França nem no nobre saibro. Aquele primeiro grande triunfo se estendeu nos anos seguintes, "trazendo de volta", como tantas vezes se leu e ouviu, a alegria das manhãs de domingo, momento em que geralmente aconteciam as tantas finais vencidas pelo catarinense, campeão freqüente em fuso horário algumas horas à nossa frente. Essa "volta" remetia a outro ídolo esportivo nacional, Ayrton Senna, vencedor de corridas de Fórmula-1, freqüentemente também por volta do horário do almoço dominical. "Guga é Senna" chegou a dizer a economista Elena Landau, e o próprio tenista não escapou de se referir ao ídolo que o antecedeu, consagrado campeão de um esporte que os brasileiros aprenderam a apreciar. País de tantas desigualdades, talvez não seja tão surpreendente o fascínio pelo nosso maior tenista, nem pelas máquinas de correr que reluzem em velocidade espantosa. É possível que tanto o tênis quanto as corridas de automóveis sejam esportes mais interessantes quando mediados pelas câmeras televisivas do que ao vivo, exceção feita ao fã ardoroso ou à experiência eventual de tomar parte do circo por completo, comparecendo às arquibancadas para, de perto, deixar-se mergulhar no banquete sensorial dos grandes eventos esportivos. Nossa sensibilidade, afinal, está muito mais acostumada à transmissão televisiva dos esportes, em especial do futebol, do que à presença ao vivo nos estádios. O espetáculo esportivo, pelo menos desde Leni Riefensahl, é produzido para ser televisionado, construído para ser captado na organização onírica das imagens a que assistimos em nossas casas. Guga e suas roupas coloridas, cabelos compridos, gestos largos e inusitados na quadra, arroubos de alegria e eventuais destemperos, não é uma exceção entre os especulares atletas que, além de competirem contra seus adversários, atuam, como anteviu Walter Benjamin, para a câmera.

É a força das imagens que constrói, em grande medida, as identidades que agenciamos e por meio das quais nos reconhecemos comunitariamente. Da infinita disputa pela imagem de Guga e na correspondente tentativa de agenciá-la em favor desta ou daquela leitura de o que seria nossa identidade (a insistente pergunta pelo que somos), não escapou um de nossos melhores intérpretes, o antropólogo Roberto DaMatta. "Malandro", como teria sido Senna, temperamental, apegado à família, eis o Guga brasileiro de DaMatta. Retomando Gilberto Freyre, DaMatta viu no desempenho de Guga a globalização, que faz espelhar, localmente, cada brasileiro: nosso melhor tenista respeitaria, ao cultivar um "penteado afro", o "mito das três raças".

O requerimento da imagem de Guga nas disputas pelas identidades não impediu que ele fosse visto como um "manezinho da Ilha", figura local que "colocou Florianópolis no mapa", torcedor do Avaí Futebol Clube (os jornais alemães já destacavam o fato como pitoresco, em 1997), alguém que poderia ser encontrado nas praias de Florianópolis, praticando surfe ou apenas se divertindo com os amigos. Descendente de alemães, "manezinho da Ilha", treinado por um profissional oriundo do Rio Grande do Sul, expressão do mito das três raças, pivô de uma crise entre o Comitê Olímpico Brasileiro e uma marca de produtos esportivos que o patrocinava, fato que por pouco não lhe deixou fora dos Jogos de Sydney 2000: parece que nada se deixa escapar, em tempos de atletas espetaculares e de narrativas heróicas sobre eles, da imagem de Gustavo Kuerten. Um pouco de nossos sonhos e projeções, o que gostaríamos de ser, um guerreiro que sozinho enfrentou todos os grandes tenistas de seu tempo. E os derrotou. Na falta de projetos coletivos e de utopias, fiquemos com a figura que simboliza a pureza do corpo forte, indivisível, completo, vencedor. Certamente não é apenas isso que nos fascina no esporte em geral e em Guga em particular, mas ele, vitorioso por nós, nos alivia de nossos fracassos e, principalmente, do gosto amargo de nossa falta de futuro.

Mas o fato é que Guga também decaiu, encerrando sua carreira de enorme sucesso em posição mais que discreta no ranking mundial, um lugar que quase contrasta com o caráter de espetáculo que sua turnê de despedida ganhou. Claro que entrou em jogo o reconhecimento por sua trajetória, e por isso pouco ou nada se ouviu de críticas ao tenista, muito mais se escutou, aqui e ali, lamentos que apenas sucederam os meses de solidariedade pelo anunciado esforço de recuperação física. Como outros atletas de sucesso, Guga reclamou pouco do destino que lhe impingiu tantas dores corporais. Disse, no entanto, que se o corpo permitisse, poderia seguir jogando bem por mais alguns anos, lamentando que o instrumento por meio do qual se fez campeão lhe tenha pregado essa peça. Já em seus tempos de glória, em mais de um torneio se viu, e em pelo menos uma vez seu treinador declarou, em alto e bom som, que a dor e o sofrimento faziam parte do cotidiano de Guga, tributo a ser pago pelos troféus, pela fama. Nenhum adversário, mas seu próprio corpo doloroso foi-lhe o algoz final.

Ao dizer que a dor lhe tirou a possibilidade de seguir jogando em alto nível, Gustavo Kuerten mostrou uma face pouco lembrada da competição esportiva, esta forma tão contemporânea de celebrar a crença na linearidade do progresso sem considerar suas contradições. No esporte, trata-se de aprimorar o corpo em sentido muito específico, tomando-o, de certa forma, como algo a ser dominado, vencido. O corpo é o instrumento do sucesso, mas também o seu limite. Theodor W. Adorno disse, certa vez, que há no esporte um impulso à crueldade e ao masoquismo. Mirando os atletas, é de se perguntar em que plano se coloca uma ética em relação ao corpo e à vida nesses tempos de corpos que apenas parecem ser ilimitados. É possível que encontremos uma resposta não nas grandes narrativas de feitos heróicos no esporte, como os de Guga, mas ao pensarmos sobre a fascinação que eles nos trazem ao olvidarmos (e celebrarmos) da dor que lhes é inerente. Afinal, seria bom que não nos esquecêssemos daquilo que um "maldito" filósofo uma vez ensinou: que, por sorte, há limites no corpo, e eles nos fazem sempre recordar que não podemos ser Deus.

* Professor do Centro de Ciências da Educação da UFSC

ALEXANDRE FERNANDEZ VAZ *

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre o pior dia do Ano...

Recordar nunca é demais...

Bom, alguem aí se lembra da invasão digna dos tempos da ditadura militar ao Instituto de Geociências da UFMG (IGC)???? Não lembra? não tem problema... vou publicar aqui o que aconteceu nesse dia...


Penso ser necessário começar refletindo o que aconteceu no dia 03/04/08.

Primeiro a minha sensação...

Esse dia eu estava na Faculdade de Educação, fechando alguns assunto de pesquisa. Eram aproximadamente 18:00, quando percebo um numero de viaturas dentro do Campus (o que é absurdo, já que a Universidade Federal é um espaço FEDERAL e quando acontece algo lá dentro quem a aparece? os federais!!!). Como no ano anterior eu me percebi na mira da arma de um policial, pensei "sou preto logo me grampeam, vou embora." Entro no ônibus e quando passo em frente ao IGC vejo, juro por Deus, um grande numero de viaturas, um Helicoptero, vários policiais... Minha primeira reação foi "Puta que pariu, mataram o Mateus (meu amigo estudante do curso de geografia e militante do movimento estudantil)" Porém, esses são os fatos que eu percebi, dentro do ônibus, atônito e impotente...



Contudo, vale a pena analisar o que aconteceu lá no Instituto de Geociências...


Primeiramente, o video no qual um Estudante é preso por "desacato a autoridade"





E os videos da "ação policial" digna de Hollywood, ou Max Payne no IGC...













Bom, o que aconteceu nesse momento foi o seguinte: Os alunos do IGC queriam passar o filme ‘Grass Maconha’ (um documentário da revista superinteressante), ao que parece a diretoria do IGC não permitiu a exibição do filme alegando que o conteudo do filme fazia apoligia ao uso da maconha. Como a diretoria do IGC não "permitiu" a exibição do filme, a segurança da univerdidade foi acionada e posteriormente a policia foi "chamada".

As vozes oficiais dizem:

fonte - http://www.ufmg.br/online/arquivos/008164.shtml

COMUNICADO DA REITORIA À COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA

sexta-feira, 4 de abril de 2008, às 11h44

No dia 2 de abril, p.p., a Reitora em exercício, Professora Heloisa Maria Murgel Starling, recebeu o ofício IGC nº 086/2008, da Diretora do Instituto de Geociências, no seguinte teor: “Conforme documentação anexa, enviada à Procuradoria Jurídica, informamos que está programada a exibição do filme ‘Grass Maconha’ na arena deste Instituto de Geociência, amanhã – 03 de abril, às 17h30. Esclarecemos que esta atividade não foi autorizada pela Diretoria, conforme e-mails enviados ao Diretório Acadêmico, que informou não ser responsável pela programação do mesmo. Em função da demonstração do discente Wander Lúcio Mourão Júnior – matrícula 2003022630, que não é integrante do Diretório Acadêmico, em permanecer com os cartazes afixados e afirmar que a exibição do referido filme seria mantida, solicitamos o reforço da segurança universitária nas dependências desta Unidade no dia 03 de abril, a partir das 17 horas.”

Ao ofício acima mencionado foi aposto o seguinte despacho pela Chefia de Gabinete: “De ordem da Reitora em exercício, autorizo que a chefia de Segurança da UFMG garanta o cumprimento da deliberação da Diretora do IGC.”

No final da tarde de ontem, 3 de abril, a Reitoria tomou conhecimento de que a ordem da Diretora do IGC não havia sido respeitada. Ocorria tumulto naquela Unidade Acadêmica, com intervenção da Polícia Militar, agressões entre os presentes, um estudante detido por desacato à autoridade e dois outros encaminhados ao Pronto Socorro, com escoriações.

Frente a tais fatos, a Reitora em exercício imediatamente tomou as seguintes providências: a) entrou em contato com o Comando da Polícia Militar para esclarecer o ocorrido; b) solicitou a presença da Diretora do IGC ao Gabinete para mais esclarecimentos; c) solicitou que o Procurador-Geral, Professor Fernando Jayme, acompanhasse o registro policial relativo ao estudante detido, na Delegacia Adida ao Juizado Especial Criminal –DAJEC; d) solicitou que o Assessor Especial da Reitoria para a área de Saúde, Professor Paulo Pimenta de Figueiredo Filho, acompanhasse os estudantes em atendimento no Pronto Socorro.

A Reitoria lamenta que tais fatos, inteiramente estranhos à civilidade que caracteriza o ambiente acadêmico, tenham ocorrido; repudia qualquer ação de violência praticada; informa que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar e esclarece que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades.

Heloísa Maria Murgel Starling
Vice-reitora da UFMG


Diretoria do IGC: essa nota foi colocada na primeira página do sitio do IGC: http://www.igc.ufmg.br/



Ontem, dia 03 de abril à noite, o Instituto de Geociências foi palco de um enfrentamento entre polícia militar e alunos.

O incidente foi iniciado a partir de convocação pública, através de cartazes, feita de forma anônima para realização de atividades na arena do IGC. Estas atividades foram desautorizadas pela Diretoria, tendo em vista o fato de não terem sido previamente acordadas, informação necessária para autorização segundo normas do Instituto e nem terem sido identificados os organizadores, uma vez que o DA/IGC negou participação.

Considerando nossa responsabilidade estatutária e regimental, pelo Instituto de Geociências, frente a rumores de que o filme seria passado à revelia da Direção, solicitamos à Reitoria um reforço da vigilância interna da UFMG. Quando a diretoria foi informada da possibilidade de confronto, imediatamente procedeu à autorização para que o filme fosse exibido, exatamente para evitar que uma discussão interna fosse transformada em problema policial.

A Diretoria do IGC pede desculpas à comunidade do IGC por não ter conseguido evitar o conflito e se solidariza com os alunos e professores que foram, indevidamente, enredados em uma tragédia policialesca, em alguns casos sofrendo agressões morais e físicas. Como sempre fizemos, manteremos nossas portas abertas ao diálogo e desejamos que nunca mais se repita o ocorrido.

Os acontecimentos que levaram destes fatos à entrada da polícia no Campus não estão claros e devem ser apurados, pois o IGC foi invadido por força policial.

A Direção do IGC



Depois dos fatos algumas questões são necessarias:
Como a reitoria pode proibir a exibição de um filme? Ou então manipular o que pode e o que não pode ser exibido na universidade?
Vamos recorrer ao artigo 207 do terceiro capitulo da constituição federativa do Brasil: "
As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão."
Bom, o que eu estranhei foi o fato de haver a necessidade de se pedir permissão para se exibir um filme. Imaginem só, isso funciona mais ou menos como os sindicatos no governo de Getúlio Vargas, que só podia se expressar se o presidente deixasse, ou seja, a liberdade dos alunos é algo que só existe se os professores deixarem ou não... Pensando nisso, como formar professores, profissionais autonomos, se não existe a possibilidade de debates, ou se isso só acontece quando o universidade o faz?

Alguns colegas (alunos...) alegam que os alunos do IGC estavam fazendo "apologia ao uso da maconha". Bom, vamos aos fatos: De acordo com o dicionário.

apologia

do Gr. apologia, defesa, justificação


s. f.,
discurso para louvar, defender ou justificar;
louvor;
defesa.
Engraçado o discurso vomitado... Existe a possibilidade de um discurso não apológico? A não ser que você seja um analfabeto politico... rs...

Na semana da invasão, apenas a faculdade de educação( é por isso que gosto da FaE) se posicionou sobre os fatos... uma olhadinha no conteúdo da carta é imprescindível...

MANISFESTAÇÃO DA CONGREGAÇÃO DA FAE SOBRE A AÇÃO POLICIAL NO IGC

Fonte: http://www.fae.ufmg.br/manifesto_congrega%E7%E3o_fae.doc

A Congregação da Faculdade de Educação, reunida no dia 07/04/08, considerando os fatos ocorridos no IGC no dia 03/04/08, vem à público manifestar sua posição, nos termos que se seguem:

A ação policial de que a Universidade foi vítima é de enorme gravidade. O último precedente dessa natureza aconteceu há mais de 30 anos, na tentativa de realização do Terceiro Encontro Nacional dos Estudantes, na Faculdade de Medicina. Naquela ocasião a polícia invadiu e prendeu os estudantes, sem que nenhum ato de violência fosse praticado, dada a intervenção direta do então Reitor Eduardo Osório Cisalpino que lá esteve e saiu junto aos estudantes quando estes foram levados aos ônibus que os levariam presos. Há que se lembrar a dimensão dos fatos naquela ocasião: o terceiro ENE tentava reorganizar a UNE, banida por lei da Ditadura Militar. Tratava-se portanto de assunto de segurança nacional numa época de Ditadura.

O incidente que gerou a violência de quinta-feira era infinitamente menos grave e de pouca importância para que tivesse gerado o que gerou. Além disso, os estudantes que tentavam fazer a reunião estavam assegurados pela constituição federal, que no seu artigo 5º garante a liberdade de manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato (inciso IV); a liberdade de expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (inciso IX); e finalmente assegura que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (inciso XVI).

Consideramos que o incidente reflete a nossa perda de identidade político-acadêmica. Transferimos nosso poder de decisão para outras instâncias. Nesse incidente, houve uma transferência de autoridade dos dirigentes para as forças repressivas (fossem essas a segurança interna ou a polícia). Estamos incorporando em nossas práticas uma visão criminalizadora da juventude, em que qualquer ato de rebeldia é identificado como ameaça à ordem pública. Excessos, radicalismos ocorrem como sempre ocorreram e ocorrerão. Mas a Universidade, e mais exatamente a UFMG, não pode pretender ser para seus alunos apenas o espaço de afirmação da excelência acadêmica. Ela tem um papel de espaço possível de exercício da rebeldia (quanto mais no mundo conformista de hoje), que atravessa a história da juventude e suas expressões.

Além disso, a polícia não pode invadir o campus sem ser convocada pelo(a) reitor(a). A universidade é território federal e a ação da polícia feriu o artigo 144º da Constituição Federal, que prevê as atribuições das diferentes forças policiais. Houve abuso de poder e extrapolação de competência nesse caso. Ao chamado, se por acaso ocorreu, a polícia deveria ter simplesmente respondido que ações na universidade são da competência da polícia federal.

Nesse sentido, a Congregação da Faculdade de Educação manifesta o apoio ao esclarecimento isento das responsabilidades pelo episódio, e solicita que seja exigido da polícia um pedido de desculpas e a apuração e possível punição dos responsáveis. Entendemos que sem esses encaminhamentos a universidade não vai poder curar sua ferida e o estado de direito que atualmente vigora na democracia brasileira terá sido violentado sem maiores conseqüências.

Sala da Congregação da Faculdade de Educação, 07 de abril de 2008


Após tudo isso, houve a ocupação da reitoria pelos estudantes, várias assembléias, debates e uma sindicância foi convocada... Mas, nada foi comprovado, ninguem foi penalizado. Creio apenas em uma coisa, conforme aprendi com Marx, existe uma grande diferença entre aparência e essência... Acho que vivemos em um periodo que talvez seja pior do que a ditadura militar, pois, acreditamos que vivemos em uma sociedade "democrática", onde podemos nos expressar, mas... a primeira possibilidade de um grupo querer pensar de forma diferente o que acontece? o estado apresenta suas armas (vocês se lembram de Eldorado dos carajás? ou dos Chiapas? ou ainda da Palestina?)

Para finalizar essa looooonga postagem uma frase:
"A exigêcia que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a Educação." Theodor Adorno - "Educação após Auschwitz"

Parece que estamos sendo educados no modo "Auschwitz"... A violência ainda continua sendo a unica justificativa... Eu odeio lembrar desse dia, ou da forma como fomos tratados pelos nossos colegas de curso no dia seguinte, me senti pobre, senti que nossa sociedade se contenta com a pobreza, com o empobrecimento de nossas relações... sem mais...

Abraços e tenham todos um ano um pouco melhor...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um discurso bem recorrente...

Após a reclamação da minha leitora preferida, segue mais uma reflexão... Esse texto saiu no sitio "final Sports" e uma reflexão sobre esse tema é extremamente necessária.


Em audiência na Câmara, COB defende educação física nas escolas
27/11/2008 - 22:07:10 - por FS - AI COB

Investir na base e na formação esportiva das crianças desde a escola, fazendo com que a Educação Física seja valorizada na grade escolar. Este foi um dos caminhos apontados pelo Comitê Olímpico Brasileiro para criar uma cultura esportiva no país e fazer do esporte uma ferramenta de educação e socialização no Brasil. A defesa do COB ocorreu nesta quinta-feira, dia 27, durante audiência na Comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados, que se reuniu para falar sobre as Olimpíadas Estudantis, que integram as Olimpíadas Escolares e as Olimpíadas Universitárias. Na audiência, o COB esteve representado pelo presidente, Carlos Arthur Nuzman, pelo superintendente executivo de esportes, Marcus Vinícius Freire, e pelo gerente do departamento de eventos, Edgar Hubner.

"Precisamos valorizar o professor de Educação Física e a prática esportiva nas escolas, de forma a permitir que as crianças e jovens possam conhecer e praticar os valores do Olimpismo. Este é o início de tudo. Não adianta a Educação Física ser obrigatória por lei e não ser cumprida, seja pela escola não ter instalação esportiva ou por ser praticada de forma inadequada e que não atenda aos anseios do esporte e da educação", explicou Nuzman.

As Olimpíadas Estudantis foram criadas em 2005 a partir de um convênio com o Ministério do Esporte e com as Organizações Globo e tem como objetivo recuperar e incentivar a prática esportiva nas escolas, estimular a prática do esporte escolar com fins educativos e ampliar o ambiente para o desenvolvimento dos talentos esportivos. É um projeto que vai até 2012, podendo ser renovado até 2020. De forma a permitir o equilíbrio técnico da competição, as Olimpíadas Escolares são divididas nas categorias de 12 a 14 anos e de 15 a 17 anos. O evento conta com nove modalidades: atletismo, basquete, futsal, handebol, judô, natação, tênis de mesa, vôlei e xadrez. Além disso, a cada ano as Olimpíadas Escolares vêm proporcionando aos participantes uma série de atividades paralelas relacionadas à cultura, ao meio-ambiente e ao turismo, bem como palestras de técnicos e de atletas olímpicos.

Em 2005, o COB arcou com 100% das despesas das equipes que disputaram a fase final das Olimpíadas Escolares, tendo como fonte de recursos o percentual (10%) da Lei Agnelo/Piva que o COB é obrigado por lei a investir no esporte escolar. Como os valores oriundos da lei não seriam suficientes para manter a competição ao longo dos anos, a partir de 2006, conforme informado na época às secretarias estaduais, o COB diminuiu gradativamente o subsídio ao transporte. Já em 2008 esse item foi coberto integralmente pelas secretarias estaduais, cabendo ao COB os custos com a organização do evento, aquisição e aluguel de equipamentos, alimentação, hospedagem em hotel (padrão três estrelas) e arbitragem. As cidades-sede entram com uma contrapartida em termos de serviços, como, por exemplo, transporte interno das equipes, segurança, montagem do comitê organizador e atendimento médico. Hoje, exceto os custos de transporte entre os estados e a cidade-sede, cada edição das Olimpíadas Escolares custa aproximadamente R$ 3,5 milhões para o COB.

Em três edições (2005, 2006 e 2007), as Olimpíadas Escolares já reuniram cerca de 4,3 milhões de alunos nas seletivas municipais e estaduais (fases classificatórias) e na fase nacional das duas categorias. Somente na fase nacional, que corresponde à fase final da competição, em 2008 foram 2.755 atletas na categoria de 12 a 14 anos, realizada em Poços de Caldas (MG) e 2.854 atletas entre 15 e 17 anos, cuja competição aconteceu em João Pessoa (PB). No total, 18.650 escolas (13.845 públicas e 4.815 privadas) participaram das Olimpíadas Escolares em 2008, sendo 1.623 na fase final. A competição envolveu um total de 1.869 municípios (33,6%). Já as Olimpíadas Universitárias 2008, realizada em Maceió, reuniram 2.766 alunos e 190 instituições de ensino superior dos 27 estados. "Vários dos participantes de hoje das Olimpíadas Escolares serão os futuros representantes do Brasil a partir de 2016 nos campeonatos mundiais e nos Jogos Olímpicos. Este projeto foi apresentado recentemente na Malásia, durante um congresso do Comitê Olímpico Internacional, e foi considerado inédito em todo o mundo", revelou Edgar Hubner.

fonte: http://www.finalsports.com.br/03/comando/headline.php?n_id=90427&u=0\



Bom, como relatei acima, algumas reflexões são necessárias. Primeiramente devemos (re)lembrar (até por que algumas pessoas pensam que sou assim...) que a promoção da prática esportiva é extremamente importante na escola, assim como os jogos estudantis, porem, esses eventos devem levar em consideração o espaço escolar e os atores sociais envovidos, ou seja, a construção de um evento que apenas reproduz o esporte espetáculo e não respeita a diversidade dos alunos torna o esporte uma prática empobrecida.

O segundo questionamento está na fala dos dirigentes. O valor da Educação Física Escolar está diretamente ligado ao numero de atletas que supostamente revelaremos? Essa fala vai contra o ideal da Escola (quer dizer, se o ideal de igualdade ainda for pensado para esse espaço social...) Pensando na escola como um espaço plural, ou seja, meninos, meninas, jovens e adultos de origens sociais variadas, uma aula de Educação Física deve ser pensada para a inserção de todos na cultura corporal de movimento, se pensassemos em nossas aulas como um espaço de seleção de atletas estariamos mais uma vez reproduzindo a lógica da exclusão, tão recorrente em nosso cotidiano (Não devemos esquecer que a escola já é um espaço permeado de contradições que devem ser questionadas).


O grande problema está no sonho dos dirigentes retirarem um "peso" na formação de atletas dos clubes e federações e jogar essa "função" para a escola. Isso sem contar o fato da propria inserção dos jovens nas categorias de bases esportivas (incluo TODAS elas) estarem inseridas em processos bizarros, como abuso sexual de menores, trafico de influências, trabalho infantil (pensando que esses jovens atletas estão muitas vezes condenados a viver sem uma infância) entre outros crimes... È logico que essa ultima frase é dura, pois alguns dirigentes (em uma parcela muito, mas muuuuuuuuuito pequena) estão preocupados com a valorização da infância de meninos e meninas.

Em suma, a Escola deve (ou deveria) se preocupar com a formação humana de nosso alunos, de modo crítico, questionando as contradições de nossa sociedade... Lembrando esse lugar está longe de ser um espaço do consenso, onde todos concordam com tudo que o outro diz!!

E continuamos a pensar nos fragmentos do planeta Terra!!!!

Abraços!!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Bom, estreando esse espaço, gostaria de colocar o comentário do autor do texto abaixo!

"Luciano!
Não consegui fazer um comentário em seu blog. Mas, queria te agradecer pela
deferência em divulgar meu texto, em especial na inauguração do seu blog!
Desejo muito sucesso no projeto. Fique à vontade para colocar lá meu
comentário, caso deseje.
Um abraço grande,
alexandre."

Vamo que vamo que som não pode parar!! Continuaremos o debate sobre os fragmentos do mundo!!

Abraços!


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Mais um inicio...

Bom, após alguns atrasos (devido a facul, leituras, o Galo... rs...) começo a dialogar com alguns dos "conflitos iminentes" presentes em nosso cotidiano... Estou pensando nesse blog, como um espaço de trocas, um espaço onde conversar sobre nosso cotidiano, como ele vêm sendo construido...


Vou tentar (vejam bem... tentar) postar algo novo todo dia, mas sei que isso será impossivel e todos nós sabemos o porquê...


Começo essas reflexões com um texto do Professor Alexandre Vaz - professor da UFSC... Um cara que é uma referência para a minha formação...


Dessa forma, boa leitura!!

Abraços!!


Luciano J.J


PS: Esse texto foi publicado no "Diário Catarinense" no dia 29 de nevembro de 2008 e pode ser encontrado no seguinte endereço:



Da normalidade da barbárie

Dos veces junio, de Martín Kohan, relembra a ditadura argentina em livro que conta uma outra Copa de 1978

Há pouco mais de 30 anos, em junho de 1978, disputava-se a Copa do Mundo de Futebol na Argentina, país cuja seleção venceria a competição em final disputada, em clima de comoção nacional, contra a Holanda. Finalmente a Argentina chegava ao triunfo maior do mundo futebolístico, depois um vice-campeonato logo na primeira edição dos mundiais, em 1930, de muitas vitórias em competições internacionais de clubes, de figurar como principal força nos anos 1940, quando não houve Copas por causa da Segunda Guerra. Na fase semifinal da competição, os argentinos haviam enfrentado o selecionado brasileiro naquela que ficou conhecida como a "Batalha de Rosário", partida disputada em campo lamacento, com pouca técnica e muita rispidez de ambos os lados. Os argentinos se depararam com os brasileiros fora de Buenos Aires, onde, como país anfitrião, sediavam seus jogos, porque haviam sido surpreendentemente derrotados pelos italianos na fase inicial.

A Copa de 1978 e, em especial, a derrota para a Itália - esta que levou argentinos e brasileiros a se encontrarem antes da final - são a moldura da narrativa do bonaerense Martín Kohan em Dos veces junio (Buenos Aires, Editorial Sudamericana), novela de breve texto, de 2002, e publicada no Brasil três anos depois. Ela faz um par eletivo fundamental com livro posterior de Kohan, Ciencias Morales, laureado com o prestigioso prêmio Herralde de 2007.

Trata-se, nesse caso, de momento anunciado no final do primeiro livro, uma segunda vez, como no conto de Cortázar, mas quatro anos mais tarde: um novo mundial, desta vez com campanha muito fraca; uma guerra, a das Malvinas, cujos processos e resultados só serviram para confirmar não apenas a tragédia anunciada de uma derrota, mas uma catástrofe para emascular definitivamente a auto-imagem argentina, na figura do general embriagado na Casa Rosada, mas, sobretudo, na dos jovens soldados mortos, mutilados e enlouquecidos. Em um país tão afeito a manifestações nacionalistas, para o qual "As Malvinas sempre foram, são e serão argentinas" - até hoje no "dia do hino" é executado o das Malvinas, assim como o serviço de previsão do tempo na televisão se ocupa das intempéries climáticas do arquipélago, como se ainda fosse ele território argentino - , o Mundial e a Guerra no sul do mundo compõem um quadro que, para além do ciclotímico movimento entre euforia e desalento, traz algo a saber sobre o país vizinho, suas expectativas, seu destino. Mas não é só a Argentina que se deixa mostrar de forma catastrófica no romance de Martín Kohan, já que, não apenas por um efeito especular, trata-se de algo em que diz respeito não menos do que à humanidade.

Dos veces junio é narrado por um jovem recruta no serviço militar. Ele pretende estudar medicina logo após a colimba, que como é chamado, informalmente, o período destinado à preparação para servir à essa ficção macabra chamada "pátria". Depois de deixar os pais emocionados ao terem ouvido seu nome na lista de sorteados - é incrível a quantidade de "listas" que as ditaduras elaboram - , e ouvir todo um anedotário a respeito das relações entre recrutas e esposas de oficiais, algo que lhe constrange, o personagem se vê incumbido de atuar como motorista de um oficial médico, o Doutor Messiano.

Tudo de desenrola numa dinâmica que segue a narrativa do conscrito que guia um Ford Falcon pela Grande Buenos Aires, naquelas poucas horas que vão de uma questão inicial formulada como consulta técnica de um médico a outro, ambos comprometidos com o aparato da tortura, até sua resposta e desfecho alucinados, no dia seguinte à derrota da seleção argentina. Depois, o epílogo de quatro anos mais tarde. Mas há quase uma outra narrativa, paralela, intercalada com os pensamentos do jovem motorista, um discurso oficialista que ganha ares grotescos e fala de orientações técnicas sobre as possibilidades de tortura de uma mulher que recém dá a luz, da escalação da equipe de futebol argentina, ou ainda da precisão de balanças, aparelhos adequados para definir a massa de um corpo. Essas descrições e quase divagações técnicas aparecem freqüentemente em parágrafos intercalados à narrativa do recruta, o que, ao contrário de contrastar, corresponde ao formalismo adestrado de seu pensamento. É como se tudo não passasse de um problema a ser resolvido, uma tarefa a ser cumprida de maneira eficiente, mais ou menos um passo antes do que como na atuação dos gerentes medíocres do nacional-socialismo, tal como descreveu e analisou Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, livro-reportagem sobre o principal administrador da máquina de extermínio do Terceiro Reich. É em clima de tecnicalidade e de divagações impactantes porque quase infantis mas muito bem comportadas do recruta, de sua paciência e diligência no cumprimento das tarefas, suas pequenas e vagarosas e detalhadas satisfações alcançadas no respeito e no afeto que lhe deposita, mesmo com a distância típica dos verdadeiros homens, o Doutor Messiano, que tudo que é bárbaro e sombrio aparece: a normalidade dos pequenos papéis, a óbvia expectativa da vitória esportiva - cuja consecução o livro despreza ao não citá-la - , o pudor que tolera sem propriamente aprovar a arrogância nas relações hierárquicas, o evidente respeito e cortesia no trato. Tudo isso expõe as vísceras de uma normalidade grotesca, irracional e insultante, essa mesma sem a qual uma ditadura não sobrevive.

Mas há o anticlímax, a derrota imprevista frente à seleção da Itália, quiçá porque o goleiro não era Hugo Gatti, do Boca Juniors, mas Ubaldo Fillol, do River Plate, como pondera o Doutor Messiano. Ele, aliás, está no estádio "Monumental" de Nuñez, onde seria depois a final, compungido como (quase) todos, dentro e fora do estádio - há o recruta mais preocupado com sua obrigação de encontrar o chefe, há o ouvinte do rádio que, como um colegial matreiro, finge acompanhar o jogo, mas escuta música, mas quase ninguém mais alheado da partida. Ao final do jogo, o Doutor Messiano é encontrado por seu motorista: a ele se procura porque a consulta técnica deve ser respondida. Mas o Doutor Messiano não quer saber de nenhuma atividade médica antes de "salvar a noite", como insiste em dizer. Portanto, é preciso ir à outra face da tortura, ilustrada por uma noitada de gozos com senhoritas. A pornografia não deixa dúvidas, assim como a tortura, ao narrar que as marcas do corpo não permitirão, jamais, que a vítima esqueça.

É preciso sempre voltar a tentar dizer o quanto a literatura pode dizer do indizível. Martín Kohan é bastante econômico nos episódios sangrentos, não deixando que a dor se vulgarize. Ao contrário, ao mimetizar na forma simultaneamente compacta e demorada, a superfície dos diálogos educados e viris, as questões técnicas e a rotina, alcança o fundo da experiência subjetiva de se defrontar com o mal. É na banalidade do pensamento, sempre conservador, do recruta, ou nas ações, sempre se pretendendo exemplares, do Doutor Messiano, que se materializa todo o horror. Ambos satisfeitos com as receitas e respostas técnicas, evidentemente corretas em relação a problemas que lhes parecem quase prosaicos, como, por exemplo, a má redação de uma nota em um caderno de registro militar, cujo conteúdo pouco importa, mesmo que seja uma pergunta sobre a idade necessária para se começar a torturar uma criança. Mesmo que a resposta, que só é sugerida, mas não encontrada, depois do jogo entre Argentina e Itália, seja discutida pelo Doutor Messiano com o colega, o Doutor Padilla, em termos "médicos": tratar-se-ia não de um problema cronológico, mas de alcance de peso, como um animal que engorda para o abate. Tratar-se-ia de um problema familiar, de uma irmã que, apesar das várias tentativas, não pudera gerar filhos.

Se o esquecimento é arma fundamental de todos as ditaduras, rememorar é prática de resistência. Esse movimento, que tem na força expressiva da arte um lugar possível, encontra na literatura de Martín Kohan uma forma singular. Não se trata aqui de estetizar a barbárie, porque não há acordo que busque o apaziguamento do leitor. Em tempos em que o debate entre nós outra vez volta de forma mais aguda para aquilo que nunca foi resolvido - mas que se quer esquecer - , seria o caso de observar, até que ponto a razão técnica não eclipsa o pensamento. Mas também, pior que tudo, até onde ela não, outra vez, justificativa da dor e do sofrimento.

* Professor do Centro de Ciências da Educação da UFSC; pesquisador CNPq

ALEXANDRE FERNANDEZ VAZ *


esse texto pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2311875.xml&template=3898.dwt&edition=11200